terça-feira, 30 de outubro de 2007

carta para Zezim (ou para um amigo qualquer)


Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho - e posso estar enganado - que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

(Morangos Mofados, de Caio F. Abreu, p. 120.)

ENTÃO VÁ


VOCÊ JÁ FOI À BAHIA? ENTÃO VÁ"

Os jornalistas Clayton Khan e Junior Viana lançam nesta quinta-feira, 01 de novembro, a exposição "Então vá", em Araçatuba.
A dupla percorreu a Bahia para registrar por meio da fotografia suas impressões de pessoas e lugares com os quais se depararam pelo caminho.
A exposição acontecerá no Foto Suzuki, a partir das 20h30, para amigos, parceiros e imprensa. Comidas e bebidas típicas da Bahia também serão apreciadas pelos convidados.
As fotografias ficarão expostas no Sesi de Birigui no período de 05 a 25 de novembro. De 27 de novembro a 09 de dezembro, o trabalho será levado para o Araçatuba Shopping Center e, a partir de janeiro do próximo ano, percorrerá outras cidades do Estado de São Paulo.


sexta-feira, 19 de outubro de 2007

dúvida?


querida menina saltitante, esquecer é um verbo que não se formaliza neste caso. nem esquecer, nem distanciar. aperfeiçoar rotas e métodos talvez explicasse, mas são termos por demais técnicos e pouco elegantes para aquilo que se encena. nada de dúvidas, nem sobre caminhadas, palavras, listas, danças, idas e vindas, sentimentos, quilômetros, passagens, mensagens, mensagens, mensagens, vozes na noite, pessoas, mais pessoas, fatos e repercussões, expressões ditas e malditas...aquilo que se falou, está guardado no devido bau interno, em um canto da mente e coração nos quais guardamos tanto as lembranças mais ternas quanto as vontades mais instigantes. calma sempre, dúvida não entra aqui.

sentir, lentidão e distância

Andava distante aquele menino de calças curtas. Sentia o mundo com uma leveza e um querer que nao sabia identificar. Sentia e caminhava, como grãos de areia que vão e param com o vento...e vão de novo...seguem para o mesmo lugar. Alguém o chamou, precisava chamar. Alguém o lembrou da sua distância, querendo apenas saber, mas com um certo ar de querer mais...ouvir sua voz ou seu sorriso...ou mesmo seu reclamar que por vezes é mais sadio. Reclama e dá sinal de continuar o mesmo. Os dedos se procuram, as palavras se desencontram, está de fato longe, mas não deixa de lembrar, não deixa de querer talvez uma conversa sentado em um banco de praça, no chão pode ser, não importa porque o que vale são as palavras, as expressões e o descarregar da alma, das angústias. Não passa mais que dois dias sem querer falar mais, mas precisa caminhar e se esquece de olhar pra dentro, de chamar, de repetir o que já se sabe. Eu estou aqui! Placas, papéis, planos, pensamentos, pode, se quiser. Subiu em uma montanha, procurou, encontrou, constatou que tudo está, certa forma, bem. Sentou, parou para pensar. Tem algo a se ajustar, mas o tempo trará respostas? Mesmo que espere, nunca pensa em desistir, não seria típico. Nunca foi. Quer aproveitar cada passo, sentir, descalço, o pé no chão, depois o outro, a distância, o aproximar de dedos, de idéias, do caminhar, lento, lento, lento, para que os olhos possam fitar cada ato e possa ouvir pingos, que insistem em pingar mais lentamente ainda. Desacelerar é o verbo que anda conjugando. E desacelerar nunca será sinônimo de esquecer.