sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pingo


E porque faltou comprar o colírio, deu vontade de fazer de conta que se eu chorasse bastante, bastante mesmo, eu poderia passar o tempo necessário para a adaptação das lentes sem grandes incômodos. 
Mas como chorar tantos baldes? 

Quando vi, despropositadamente estava relendo o blog desde o início e encontrei instantes de extrema cor, como borboletas secas, mas nem por isso menos belas, esmagadas nas páginas de um dicionário. 
Que felicidade! Que lágrimas!

Amanda Reis

Disputa



Saí de casa quando a faxineira acabara de terminar a arrumação. Quando retornei, eles estavam assim!!! 
Fingiram ficar imóveis. Alguns ainda cochicharam. A guerra está declarada e eles são a maioria.
[fui dormir no sofá]

Amanda Reis

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

naquele


Naquele dia, deixei de ser feliz. Eu me aborreci bastante.
Por calcular (exageramente, sempre) que aquilo duraria duas ou três semanas, tirei algumas horas para iniciar a subida. Para não pensar, apenas me entristecer, sem foco. Chorar. Ser triste.
Durou menos, bem menos. Mas, não posso esquecer daquele...
Dos dias que ficaram pra trás depois, tinha a senha do seu nome caminhando todas as manhãs pelas teclas. A ideia de que o caminho era sim o mais bonito. A percepção das doçuras que trazia. A insistência de apostar de olhos fechados em ti. A notícia de amar verdadeiramente e ter nascido em meio a tanta morte - da alma, da casa, da calma.
A realidade de ter que entender que agora é o tal do não encontrar mais aqui quem aqui está.
Naquele dia, deixei de ser feliz. E, por gostar de ti, (muito, de ti) insisto em sonho.
Continuemos - ainda que sem tuas pernas.
Faço a sombra dos teus rastros e te enlaço as costas.
Caminhemos. Juntos. Eu e isto que ainda há.

Amanda Reis

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ah...queria!



Hoje eu queria ser um poema de um verso só. Um verso que cortasse, mas que adoçasse em breve.
Pra você saber o ritmo que a vontade dá enquanto desce pela garganta.
Queria ser uma ferida na ponta do seu dedão do pé, pra te atrasar o passo e te forçar um pouco de atenção.
Hoje eu queria ser um cachorro latindo, o dono do martelo da construção ao lado.
Queria ser um chuveiro queimado no dia gelado pra ganhar teu mau humor.
Hoje eu queria ser uma mordida no canto da boca, que te lembrasse o dia todo que o amargo machuca, mas que o doce também.
Queria ser a goteira em cima do seu livro preferido, pra te fazer pendurá-lo no varal e esperar, sentando-se um pouco ao sol.
Hoje eu queria ser a chave perdida, pra te deixar sair de casa somente quando eu decidisse sair do esconderijo.
E ser o medo que te impede de jogar-se, pra que você ficasse vivo enquanto eu fingisse morrer.
Hoje eu queria ser sua comida fria, a enxaqueca, a azia.
Hoje eu queria ser uma ideia vaga que de repente inpregnasse. E você não executasse, mas pensasse, pensasse, pensasse...

Amanda Reis

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Apenas te vi, sem querer

Te vi sem querer e confesso que não estava preparado. Me desculpe, mas te vi sem querer. Como se fosse possível, o sorriso está mais lindo, com o mesmo fascínio no entanto. Os olhos parecem continuar escondendo algo que só aparece a noite, no escuro do seu quarto. Os cabelos mudaram, mas pouco importa. Estava como sempre bem acompanhada, unida e munida da única certeza que te permite fincar os dois pés no chão. Seria ótimo se aparecesse de fato, além dos rascunhos do meu escuro, lá do meu quarto. Ando pesado, as costas, os olhos querendo um ombro, o peito precisando de um colo. Mas sou forte, sei que sou e prefiro que as pessoas pensem que sou, embora guarde apenas para alguns lugares e algumas pessoas, uma alma mais fácil de acertar.

Enfim, não é hora de falar de mim. Nem de vc. Apenas te vi, sem querer.