terça-feira, 11 de junho de 2013

quem sabe acordo melhor

 
que verme me tornei? daqueles que rastejam no próprio vómito em procura de um rasgo de luz que lhe traga intensidade. vítima do querer egoísta. sabedor da condição de que o impossível não se realiza. sonhador de pesadelos. faminto pela tragédia das almas e corpos que se aquecem na chama do esquecimento.
 
nunca desejei ser tão cinza e invisível. para ser ainda menos notado, menos lembrado, menos desejável...reticências da inconstância de um querer que se foi na memória que se apagou no último rasgo de papel fotográfico. a superexposição engole meus sentimentos e me esmaga na certeza de que nem o inseto kafkiano sentiu-se tão indefeso e indiferente à sua própria letargia. não imaginei que meu papel tornar-se-ia tão pequeno, raso, imperceptível. desnecessário. agora vomito aquilo que corrói e deixa o pior azedume no estômago e nos olhos.
 
o tempo não quer. quem disse que o tempo não para pode parecer inteligente, mas diante das constatações acima, parece ser mesmo um senhor intolerante, que humilha e defeca no desejo, no erro de uma insistência que agride, mutila e auto destrói.
 
quem sabe acordo melhor.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

não seria

Hoje eu falei pra mim
Jurei até
Que essa não seria pra você
.
.
.
.
.
E agora é


(Clarice Falcão)

terça-feira, 4 de junho de 2013

quando

Quando te vi passar fiquei paralisado
Tremi até o chão como um terremoto no Japão
Um vento, um tufão
Uma batedeira sem botão
Foi assim viu
Me vi na sua mão
Perdi a hora de voltar para o trabalho
Voltei pra casa e disse adeus pra tudo que eu conquistei
Mil coisas eu deixei
Só pra te falar
Largo tudo

(Marcelo Jeneci)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

do último



Antes mesmo de secarem as folhas daquelas árvores que receberam nosso gargalhar e passos de dança no meio da areia, e de despertarem os pássaros que repousaram enfim nelas depois que a multidão se foi, você esfacelou-se. E eu, que prometi a mim viver de segredo dessa loucura de gostar de você, esfacelei-lhe - sem querer.

E o arrastar dos nossos passos tropegos de tanta dança e laço agora fazem zumbido no piso sem tapete do meu quarto.

Diante do teu rosto distante, venho pro ensaio das frases que eu nunca formei - as frases de te falar de querer e de querer deixar.  
Aquela multidão que chegou sem nos entender e partiu acreditando em algo que talvez não haja em nós, não vai saber de mim e de você. E é pena que os pássaros repetirão todas as tardes a coreografia que nos viu inventar ali. E que as pessoas imitarão os abraços que demos durante as canções. Porque nós não estaremos mais aqui, na imaginação perfeita de um algo qualquer feito pra enfeitar minhas cabeceiras.

Como ficarão os ambulantes e os policiais quando a festa findar sem terem nos visto entreter? E o que dirão os apostadores das fichas nas chances de termos nascido o um em dois mais autêntico de todas as buscas?
E as histórias que contei de ti aos corações amigos? Hão de fazer fita negra pro peito pelo tanto de tempo que levei pra juntar a eternidade que foi você e eu.
E os textos tantos com seus açúcares de cores vivas? E meus dedos caçadores dos teus cabelos? E meu riso? E teu espanto? 

E tua voz no meu pescoço, e teu pescoço em meu travesseiro, e meu travesseiro em teu rosto, e teu rosto em meu espelho, e meu espelho em teu corpo, e o teu corpo todo aqui inteiro, e a metade que fui de força, e sua parte que eu nunca vejo?
E minhas mãos na sua nuca, e sua nuca frouxa de riso, e esse teu riso que nada busca, e minha busca que não termina, e esse teu fim que não tem começo, e meu começo que não finda nunca?

Criar-te foi mais arriscado do que todos avisaram ser. Mas, destruir-te tem me custado o estômago e o equilíbrio. E as teorias todas que eu fiz do jeito certo de não te dissolver.
Daqui a pouco, te ouço e não me confesso. Não vou contar que o sentimento que eu trazia em mim, eu não senti naquela tarde toda além de aqui, no meu segredo de querer perpetuar a história que eu não sei mais escrever com você. 



"Quando o amor termina, perdido numa esquina,
e um violeiro toca sua sina..."