domingo, 19 de junho de 2016

florindo


Depois de bastante tempo sofrendo, a gente perde a mão com as coisas simples da felicidade. Em seis anos, provavelmente é a primeira vez que eu me sinto bem de verdade. De verdade...sem ser aquelas respostas que a gente dá quando não quer esticar o assunto. De verdade...sem ser espremendo aquele pedaço de medo que queria reinar a todo instante. De verdade, sem o desânimo que durante tanto tempo me tirava vontades como passar perfume, abrir a janela, tirar os óculos escuros.
Primeiro desconfiei que não pudesse ser pra mim todas aquelas alegrias. Eu não mereço, sei...mas pensava que merecia ainda menos. Muito menos. 
Depois fiquei olhando para ela, retomando aos poucos a lembrança de como é viver feliz. O estranhamento durou muito tempo - talvez a metade do tempo. 
Porque nessa hora a gente acaba dando vez à ideia de que talvez seja só mais uma cilada.
O problema de deixar de sofrer é que às vezes a gente nem percebe que a dor foi embora. A gente fica ali com o cheiro da dor, a sombra da dor, o espaço vazio da dor. 
Então depois de um bom tempo eu entendi que era seguro faxinar. Fui remexer nas coisas, cobertas e espinhos. Manipular pela última vez as feridas que manipularam meus dias por tantos e tantos espaços do calendário.
Nessa hora parece que a dor ainda está. Parece que ela ainda vai reinar. Mas só parece.
Fui adiante com a faxina. Encarei com vontade as marcas dos arranhões. Refiz caminhos. Falei. Confessei. Assumi.
O medo do medo foi perdendo força. O medo de novos tombos foi ficando pequeno.
Então foi quando eu visualizei pela primeira vez um espaço amplo. Havia espaço em branco, havia um caminho sem qualquer pegada. 
Algum tempo foi gasto ali apenas olhando. O medo não estava. O desânimo não estava. Ninguém me observava mais.
Contemplação. Gratidão. Gratidão.
Com ela veio o perdão. O perdão a mim, ao meu jeito de sofrer, à minha escolha em adoecer.
Perdoada, certamente foi quando pisei na próxima importante etapa.
Além do caminho, agora existiam flores.
O que eram flores mesmo? Para que serviam?
Outra pausa para contemplar.
De repente as flores já eram muitas. E havia sol. E chegavam pássaros. E uma cachoeira abastecia uma corrente de águas que não parava de correr.
Deu vontade de entrar. Vontade de mergulhar.
E percebi que o sol brilhava já havia um bom tempo. Mas só agora eu sentia a necessidade de me banhar nele. De passar um tempo sob o calor.
Perdoada. Aquecida. Florindo.
Abri meu email, comecei a te escrever.
Depois achei melhor jogar-me aqui, para você ler quando vier me procurar.
Sócio...não sou de prometer muita coisa, mas hoje eu vim te dizer que eu prometo nunca mais sofrer.