quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Até o reencontro

Naquela tarde de sábado, ele tinha melhorado, sim. Mas agora era segunda-feira e os dedos da filha e da neta tiveram que soltar os dele um a um. Apegou-se à vida como víamos nadar nas tardes no rancho. Fôlego! Mas, naquele dia, nada ia bem.
As duas últimas visitas saíram. Cruzaram no corredor com o senhor moreno, de voz doce, camisa azul e bíblia na mão. Não o reconheceram. E ele achou melhor assim, preferia chegar sozinho, como poucas vezes conseguiu estar a sós com quem já sabe que não há mais bordas para se apegar. E que precisa descansar os braços.
Entrou.
- O senhor está me ouvindo?
Pressionou-lhe a mão como resposta. A voz era doce. Conseguia sobrepor-se à indesejável combinação daquelas palavras.
- O senhor sabe que está partindo, não é?
Piscou várias vezes os olhos.
- O senhor vai agora para um lugar melhor. O senhor sabe que é vencedor, não é?
Apertou-lhe a mão. Pediu-lhe paz. Desejou-lhe paz. Adiantou-lhe sobre a paz que vinha. Leu. Falou. Abençoou.
- Até o reencontro.
Piscou-lhe os olhos com força, devagar. Em paz.
O homem da voz doce silenciou para, em seguida, deixa-lo. Na porta, quis parar. Virou-se para o leito, onde o outro o acompanhava com os olhos. Contemplou o último olhar daqueles 83 anos de vida com um sorriso ao homem que parecia sorrir o semblante da serena obediência. Deixou-lhe - não rotineiramente, não naquele dia.
Algumas horas depois, o homem da voz doce preparava-se para entoarm três dos cânticos que aquele senhor gostava. E pediu à família que todos os presentes pudessem saber da forma como a despedida fez-se.
- - -
Setembro começou assim. E deixará um rastro nesta primavera inteira. As flores chegaram antes e coincidentemente, acertaram unânimes: as que ele mais gostava.
A grande e barulhenta família que quando se despede deixa um silêncio ensurdecedor, pela primeira vez experimentou um silêncio inexplicável. Pessoas diferentes ouviram o mesmo silêncio, o mesmo tamanho de um silêncio só.
O passado faria sorrir, assim como a certeza do reencontro, mas o tempo que leva até lá e os tantos elementos que nele vão faltar... - é a reorganização dos dias que dói.
É o estar juntos - do vô que foi pai e mãe, avô e avó - a oração em volta da mesa, o agradecimento por mais um encontro; é o Natal, com o garbanzo; é a carne que precisa ser encomendada - dia desses ele pediu. É a tampa fechada daquela lata cheia de rosquinhas de pinga, servida uma a uma; é o pé daquela fruta, é a planta perto do muro, é o doce de cidra ou de mamão; é a implicância com as crianças; é o hinário e os vinis e CDs; é a carne de carneiro que ele não gostava; é a novela que há 10 anos ele viu "aquela sim era uma novela bonita"; as andanças a pé pela cidade; é o óculos escuros que colocaram nele pra tirar foto; é o "mais quá!!!"; é as conversas em espanhol e as frases que decorávamos na infância; o rosto que ficava vermelho e bravo por brincarmos no barro, as tantas colheres que ficaram enterradas no quintal; a sombra da mangueira; as bronca na "meninica!!! meninica!!!"; é a cadeira fora da mesa agora vazia; é o tudo e o tanto do tempo até o reencontro.

"E o pó volte à terra, como o era,
e o espírito volte a Deus, que o deu." -
Eclesiastes 12: 7



Um comentário:

Nanda Nascimento disse...

Oi Amanda, td bem?
Estava comentando em blogs de amigos e achei o seu. Lendo oq vc escreveu senti um arrepio, suas palavras tocaram em mim, falando do seu vô, do q vc sentiu qdo ele partiu.
Vc escreve com emoção, parabéns pelo talento.

Té mais.