Mostrando postagens com marcador Sobre o Sr. Caraminholas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sobre o Sr. Caraminholas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Por não estarem distraídos




"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.

Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.

Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!"

Clarice Lispector

(A Clarice, essa eterna moça, tem nos espiado. Menino, não pense que desconheço a outra metade do texto - eu apenas nego, perpetuando só o que nos faz realidade).

segunda-feira, 3 de junho de 2013

do último



Antes mesmo de secarem as folhas daquelas árvores que receberam nosso gargalhar e passos de dança no meio da areia, e de despertarem os pássaros que repousaram enfim nelas depois que a multidão se foi, você esfacelou-se. E eu, que prometi a mim viver de segredo dessa loucura de gostar de você, esfacelei-lhe - sem querer.

E o arrastar dos nossos passos tropegos de tanta dança e laço agora fazem zumbido no piso sem tapete do meu quarto.

Diante do teu rosto distante, venho pro ensaio das frases que eu nunca formei - as frases de te falar de querer e de querer deixar.  
Aquela multidão que chegou sem nos entender e partiu acreditando em algo que talvez não haja em nós, não vai saber de mim e de você. E é pena que os pássaros repetirão todas as tardes a coreografia que nos viu inventar ali. E que as pessoas imitarão os abraços que demos durante as canções. Porque nós não estaremos mais aqui, na imaginação perfeita de um algo qualquer feito pra enfeitar minhas cabeceiras.

Como ficarão os ambulantes e os policiais quando a festa findar sem terem nos visto entreter? E o que dirão os apostadores das fichas nas chances de termos nascido o um em dois mais autêntico de todas as buscas?
E as histórias que contei de ti aos corações amigos? Hão de fazer fita negra pro peito pelo tanto de tempo que levei pra juntar a eternidade que foi você e eu.
E os textos tantos com seus açúcares de cores vivas? E meus dedos caçadores dos teus cabelos? E meu riso? E teu espanto? 

E tua voz no meu pescoço, e teu pescoço em meu travesseiro, e meu travesseiro em teu rosto, e teu rosto em meu espelho, e meu espelho em teu corpo, e o teu corpo todo aqui inteiro, e a metade que fui de força, e sua parte que eu nunca vejo?
E minhas mãos na sua nuca, e sua nuca frouxa de riso, e esse teu riso que nada busca, e minha busca que não termina, e esse teu fim que não tem começo, e meu começo que não finda nunca?

Criar-te foi mais arriscado do que todos avisaram ser. Mas, destruir-te tem me custado o estômago e o equilíbrio. E as teorias todas que eu fiz do jeito certo de não te dissolver.
Daqui a pouco, te ouço e não me confesso. Não vou contar que o sentimento que eu trazia em mim, eu não senti naquela tarde toda além de aqui, no meu segredo de querer perpetuar a história que eu não sei mais escrever com você. 



"Quando o amor termina, perdido numa esquina,
e um violeiro toca sua sina..."

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Não me diga 'tchau'



Não me diga 'tchau' e não dependa da sua consciência pra ficar. Ficou um silêncio tinindo nos meus ouvidos. E eu soube imediatamente que no seu também. Você estranhou o tinir indeciso da sua própria decisão cortante. E você, depois que cortou, ficou meio mole. 
Fez eco o espaço sem palavra entre sua boca e minha orelha. E sobrou batom entre a minha boca e a sua nuca. Não me diga 'tchau'. Te beijarei a testa, contanto que não me peça apenas isto. 
Tem sol de sobra e a minha manhã não teve outra alegria. Serei aquela que guarda o seu sorriso nos próprios olhos. E aprendi a cada um desses dia guardar cada risada extensa, pra só então depois contar que me faz rir.
Serei a melhor amizade, desde que sobre vontade e falte medo. Não me diga 'tchau' e não dependa do próprio aconchego pra ficar. Deixe que eu leve aconchego. Eu me achego até seu canto, longe, eu sei...longe e a um passo quando der vontade.
Regue a expectativa, não se cobre ser chegada. Eu chego. Eu deito na tarde perdida enquanto você não chega. E a estada será maior que a estrada, acredite! 
Não me diga 'tchau'. Lembrei que nunca nesses tantos anos nos despedimos, ainda que o intervalo fosse infinito. É assim que eu me viro. É assim que eu me meto. E por fim é que eu arrisco: pode sim dar pé. 
Mas isso de hoje de eu nem opinar não foi medo de dizer. Foi é coragem de calar.



quinta-feira, 11 de agosto de 2011

naquele


Naquele dia, deixei de ser feliz. Eu me aborreci bastante.
Por calcular (exageramente, sempre) que aquilo duraria duas ou três semanas, tirei algumas horas para iniciar a subida. Para não pensar, apenas me entristecer, sem foco. Chorar. Ser triste.
Durou menos, bem menos. Mas, não posso esquecer daquele...
Dos dias que ficaram pra trás depois, tinha a senha do seu nome caminhando todas as manhãs pelas teclas. A ideia de que o caminho era sim o mais bonito. A percepção das doçuras que trazia. A insistência de apostar de olhos fechados em ti. A notícia de amar verdadeiramente e ter nascido em meio a tanta morte - da alma, da casa, da calma.
A realidade de ter que entender que agora é o tal do não encontrar mais aqui quem aqui está.
Naquele dia, deixei de ser feliz. E, por gostar de ti, (muito, de ti) insisto em sonho.
Continuemos - ainda que sem tuas pernas.
Faço a sombra dos teus rastros e te enlaço as costas.
Caminhemos. Juntos. Eu e isto que ainda há.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ah...queria!



Hoje eu queria ser um poema de um verso só. Um verso que cortasse, mas que adoçasse em breve.
Pra você saber o ritmo que a vontade dá enquanto desce pela garganta.
Queria ser uma ferida na ponta do seu dedão do pé, pra te atrasar o passo e te forçar um pouco de atenção.
Hoje eu queria ser um cachorro latindo, o dono do martelo da construção ao lado.
Queria ser um chuveiro queimado no dia gelado pra ganhar teu mau humor.
Hoje eu queria ser uma mordida no canto da boca, que te lembrasse o dia todo que o amargo machuca, mas que o doce também.
Queria ser a goteira em cima do seu livro preferido, pra te fazer pendurá-lo no varal e esperar, sentando-se um pouco ao sol.
Hoje eu queria ser a chave perdida, pra te deixar sair de casa somente quando eu decidisse sair do esconderijo.
E ser o medo que te impede de jogar-se, pra que você ficasse vivo enquanto eu fingisse morrer.
Hoje eu queria ser sua comida fria, a enxaqueca, a azia.
Hoje eu queria ser uma ideia vaga que de repente inpregnasse. E você não executasse, mas pensasse, pensasse, pensasse...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Amontoe

Menino bonito dos olhos castanhos e cabeça encaracolada de caraminholas, a vida é este amontoado mesmo. Uma porção de coisas por guardar. Uma porção de coisas por usar. Um embaralhado de aproveitar e descartar, que se misturam de modo a não permitir diferença, separação.
Daí as coisas sobre a cômoda, ainda que dentro dela haja espaço. Daí as meias pelo chão, por não saberem se vão pro cesto ou usaremos uma vez mais. Daí as peças sobre a cama, atrapalhando o pedaço de dormir.
Não sabemos bem onde coloca a vida porque é a vida este amontoado mesmo. Uma porção de coisas por ficar. Uma porção de coisas por partir. Um embaralhado de inovar e consertar, que se emaranham com jeito de quem não quer partir, desintegrar.
Daí as coisas nos cabides, mesmo quando não nos servem mais. Daí as caixas que sobem em outras caixas, por não saberem até quando as esqueceremos lá. Daí os calçados sob a cama, juntando poeira e perdendo os convites para caminhar.
Você devia saber que a vida é este amontoado mesmo. Uma porção de constrangimentos pra desembaraçar. Um embaralhado de sucessos e arrependimentos, que se alternam ou se abraçam, de modo que não dá pra separar.
Daí os pesos que hoje eu tenho – leves, sadios. Daí as partes que ainda sinto – doídas, dolorosamente saborosas. Daí os motivos que carrego pra viver contigo – frustrado, medroso, arredio, amontoado mesmo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ele fez mal


Só eu sou testemunha do bem que você me fez.
Desde o primeiro dia, ninguém é tão testemunha do bem que você é pra mim.
Você não está só de mãos dadas comigo, eu estou dentro das suas mãos - e não tenho medo disso.
Faz tanto tempo que tudo o que eu quero ver são os seus olhos, e é isso que torna tão injusto quando você diz que minto.
Nunca precisei dizer, mas mesmo assim, você não nota?
Por que não assume que é pra você?
Ninguém é tão testemunha do jogo que você faz tentando negar que não vê.
Por que não admite que só você pode botar cor?
E você ainda não abre que a culpa é sua!
Por que cê não se abre? A culpa foi toda sua.

domingo, 12 de junho de 2011

Já existe


Existe a alma mais bonita e complicada que meus olhos presenciaram chegar. Já foi feita e refeita - e deve estar sendo lapidada neste instante em que lhe escrevo. 
Estou bagunçando suas ideias quando afago seus cabelos. E se faço flores de papéis para te ver chegar, é para entortar o rastro dos passos que você deixou por pensar que assim saberia onde pisar por uma vida inteira.
Sejamos muito mais sentido que sentimento. E não se comprometa. Envolva-se em todos os instantes. Comece e termine em todos os dias. Não saia vazio, nem satisfeito. Repita o começo e nunca termine de um jeito bonito. Porque é preciso esperarmos os próximos encontros como se fossem os únicos, sempre.
Estou retirando seus segredos enquanto coloco a mão na sua nuca. E se me esqueço de possíveis defeitos é para que entenda que você é muito mais surpresas que qualquer tropeço.
Preocupe-se mais - enquanto isso me deleito. Tiro os sapatos quando começa a colocar suas ideias no braço do sofá. Busco um cobertor quando você preferir falar da distância. E nunca fique simplesmente perto.

Quando você se confundir nos gestos, que sejamos mais beijo sem explicação do que palavras explicativas. E mais palavras que argumentos. E você, tenha mais argumento que decisão. E, quando se confundir nos pensamentos, beije. Mas, saiba sempre não se render.
Esteja eternamente a um passo do começo. Para que tenhamos pela vida toda mais expectativas que chegada. Para que estejamos sempre mais para o abraço e menos para o laço. Mas, não se renda - para não se perder. Mantenha os olhos firmes na ponte que atravessa, e vá somente até a metade. Deixe que eu me aproxime pela outra ponta do caminho.
Que sejamos sempre começo. E que no futuro saibam de nós somente pela metade, e com a gente aprendam a querer por inteiro.



domingo, 5 de junho de 2011

Sobre tudo


Sócio, minha leveza de pensamentos está quite com os 50 quilos do meu corpo. Estou pequena por dentro, e não pequena de miserável, mas de essencial.
A vontade doida que bateu de organizar as coisas deve ter um significado mais pra dentro da gente do que pensamos. E depois de separar e olhar para tudo, vi o quanto as ideias andavam etiquetadas dentro de mim há muito mais tempo. 
Como se a cura chegasse antes do final dos sintomas, sabe?
Doei metade das roupas, a maioria nunca usadas. Compradas na vontade de adotar um estilo que depois pudesse vir a parecer comigo. Não me adaptei a ser o que eu nunca fui. Doei calçados, brincos, bolsas.
E sem perceber, comprei muito também. E comprei coisas que não se pareceram com quem eu fui até passos atrás, mas que dão o tom daquela que eu vejo hoje quando pergunto por mim. Eu sou muito mais colorida. E ando rindo alto também.
Os sentimentos eu não doei a ninguém, nem deixei estocado no quintal de outros. É precisar tratá-los como o esgoto. Atribuir o que nos pesa à falta de cuidados deste ou daquele, só faz protelar a purificação - que é tão bonita!
Fato é que eu encontrei pelo caminho que eu pensei ser o mais difícil aquela pessoa dá qual te falo sempre. A presença à distância, que nem sonha com o quanto me colore.
Se em outras vezes alguém me completava, sócio, este me transborda. Não me basta ou me alimenta. Ele me interessa. É meu pé de laranja lima do quintal. Minha coleção de vinis. Meu prazer pequeno e simples.
É por quem eu me encanto diferentemente a cada acesso à memória. E posso despertar no meio da noite para lembrar-me de todo o bem que ele me causa, até a hora do despertador.
To sincera da casca ao caroço com as pessoas. E posso falar pra mim sinceridades grosseiras sobre o que me aconteceu de complicado, sem peso, nem dó. Porque eu sou de ferro, sócio. E inteira. Inteiramente plenitude.
Os episódios estão devidamente encadernados. E há tantas folhas em branco na minha frente, que eu tenho medo de afogar-me.
Agora, posso dormir às 20h num sábado. E virar a madrugada de domingo para segunda acordada. É diferente. É prazeroso. É novo. Posso estar pronta pra sair, e decidirmos ficar. E podemos ir ali ou longe sentados no degrau da varanda. E posso ainda me arrumar por uma hora, somente para olharmos um pouco as variáveis da vida com os ombros lado a lado.
Experimentando as mesmas coisas, nos mesmos lugares, com a parceria da cabeça cheia das caraminholas mais fenomenais que eu já fui induzida a imaginar, ainda me espanto, diariamente, com a figura que, distante na geografia, abraça e acompanha.
Com o aprendizado que vem do dono do pensamento mais bonito, mas ainda inseguro e frágil, que não faz ideia do quanto me enfeita e me expõe ao sol mais raro e milagroso.


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Você me eleva


Parece bem bobo, parece mais simples, afinal, nada sem igual, é só você chegando. Aqui me faltam palavras, me faltam argumentos, me fogem as rimas. É você, diante de mim.
Dispenso legenda, retenho seus lances, decoro até pausas de respiração. Seguro o riso, censuro o suspiro, arquivo os instantes. É você partindo. E tudo isso ficando.
Parece bobagem. Parece poesia. Você me eleva de um jeito seguro.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Anúncio de jornal

Ao desconhecido do que ainda há de chegar. 
Ao que se abre em todos os primeiros dias de cada mês.
Ao que veio. 
Ao que muda e colore.
Ao que se comemora hoje.





"Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. 
Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. 
P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar"

(Clarice Lispector)

terça-feira, 29 de março de 2011

[com você, o mundo]



"Gosto quando olho pra você
Gosto mais quando seu olho vem
Na direção do meu
Na direção do meu
Na direção do meu

Gosto ainda mais quando esquecemos
Onde estamos e olhando em volta escolhemos
A mesma coisa pra olhar
A mesma coisa pra olhar
A mesma coisa pra olhar

Gosto quando olho com você o mundo
E gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você
Gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você
Gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você

Na direção do meu
Na direção do meu
A mesma coisa pra olhar
A mesma coisa pra olhar

(Paulinho Moska / Suely Mesquita)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Saudade em cores


Porque a saudade que me dá é colorida, penso que gosto de você.
Nas tardes cinzas que se fazem quase noite, eu vejo lonas de circo amarelas e azuis, e muitos palhaços dançando sem maquiagem.
E porque chove, penso que gosto de você. E porque faz sol, também.
E então prefiro a chuva, porque o barulho da chuva é como sons repetindo "saudade, saudade, saudade". Uma saudade para cada pingo. E os palhaços dançam sem maquiagem, porque não precisam das tintas quando felizes, felizes, felizes...
E porque chegam notícias azuis, penso que gosto de você. Mas quando chegam negras, eu tenho certeza.
E então prefiro os dias nos quais te vejo, mas gosto dos que você não está, porque estou, e tenho você nessa saudade colorida
Porque me dá esse gosto de groselha na boca, penso que gosto de você. E quando acordo assustada no meio da noite e sinto tonturas, também.
E porque lá fora é como se nunca mais nada fosse mudar de tom, tenho certeza que, aqui dentro, tudo é calmaria e sons baixinhos, e que gosto mesmo de você.

À você, que eu gosto tanto.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Achou

Investir / É cultivar o amor / Se despir / É ativar
Resistir / É aturar o amor / Insistir / É saturar
Aderir / É estar com seu amor / Adorar / É superstar
Aplaudir / Até sentindo dor / É amar
Quem puder / Viver um grande amor / Verá
Consentir / É educar o amor / Seduzir / É cutucar
Amarei! / É conjugar o amor / Não amei! / É enxugar
Avançar / É conquistar o amor / Amansar / É como está
Como estou / Com muito amor pra dar / Eu dou!
Quem estiver / Atrás de um grande amor / Achou!

(composição: Dante Ozzetti / Luiz Tatit)
.

sábado, 18 de dezembro de 2010

S A C O O O O !




Meu caro, leia sem demora. Aceite sem escolhas. Aprenda se não for cabeça-dura como eu. Retiro o que disse na postagem anterior, gostar é quebrar a cara mesmo, e não deixe de arriscar a sua. É o que dá ritmo ao mundo que gira tão despercebido.
Gostar é comer um pedaço de papel, sabendo que é papel, com gosto de papel, mas com a disposição total de pensar que é um gostoso wafer com muito chocolate.
É comprar até o filtro do café ou o enxague bucal, pensando naquele ser tão desconhecido quanto a nossa capacidade de entender que ele nem vai reparar.
Nem a encomenda tão esperada, ou o amigo que veio de longe, conserta a tristeza de um dia azarado entre você e ele (ou ela, tô me redimindo com você, sócio).
É esperar uma semana por algo que não acontece, e se sentir um cachorro molhado, um vestido novo com vinho tinto, um penteado desfeito. É desaforo! É saco cheio!
É pintar as unhas dos pés e depois escolher um sapato fechado. Comprar sorvete pra vê-lo derreter.
Gostar é um bicho-de-pé - oh, se é! E a gente quer mesmo é coçar, sem tempo pra se livrar.
Filho, gostar é igualzinho se proteger da chuva, e quando ela passar ir lá puxar as folhas das árvores e se molhar inteiro.
Parece a falta do que fazer encontrando a vontade de matar o tempo. É se desproteger. É arriscar.
Gostar é subir num pé de goiaba sabendo que a fruta tá podre,  - mas vai que dá pra aproveitar tirando o miolo, né? - cair, quebrar o braço e ainda achar que ficou no lucro.
Gostar é estar colorido por dentro e por fora, numa combinação brega que todo mundo na rua nota, menos você.
É gastar muito mais tempo sofrendo do que curtindo, mas encostar a cabeça no travesseiro e sorrir sozinho antes de dormir.
É enxergar que aquilo pode até ser mal e tal, mas pensar com um suspiro "mas pode até ser que seja demais!"


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Acontecência




Que bom estar mesmo acontecendo de você chegar e ficar
E eu ficar sempre te devendo umas doses a mais
de loucura, de loucura, de loucura
.
Bom é você não se atrasar pra me achar e eu ser bonita pra espera
E os sapatos combinarem com os passos que a gente quer dar
que a gente foi dar
.
Bom demais ver você chegando cedo de surpresa, leveza e boné
Pedindo pra eu dormir de novo e dando todo o tempo pra eu me acostumar
e tendo todo jeito de se ajeitar
.
Que bom que seus dedos a todo tempo procuram minha mão
Demora beijando meus olhos, dança demorado, ri devagar
fica até tarde, não tarda em voltar.
.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

dezembrar


É dormir com as janelas abertas, porque o medo fica pra lá do muro, e quando balança a antena sobre o telhado, aproveito para ri.
É caminhar sem tirar os pés do lugar, viajar sentados na beira do caminho, inventar o que não existe, e aproveitar para inventá-lo ali mesmo.
É parar o mundo inteiro depois de uma ideia absurda, compartilhada com a cabeça cheia de cores.
Escolher o vestido, escolher o brinco, escolher a mesa, e soltar as palavras, sem escolhas
Vestir roupas de ginástica para exercitar a beleza de não se fazer nada, além de imaginar.
Parar no meio da praça, sem hora para ir embora.
Ser uma árvore. Uma árvore grande, de folhas novinhas, que ninguém consegue arrancar, porque estão altas, altas, altas...
Olhar a chuva, e torcer para que o vento aumente muito mais, e molhe toda a roupa, a bolsa, o cardápio.
Pegar sempre o caminho mais longo, pra conversa durar mais.
Combinar e cumprir, não combinar e curtir, combinar e se divertir sem precisar combinar.
Dormir, ser acordada, para dormir mais, acordar e achar que sonhou.
Dezembro eu, dezembras comigo.
Dezembremos juntos, dezembramente livres.

domingo, 31 de outubro de 2010

Esquecendo os ritos



- O mês mais bonito do ano, sem dúvidas, é outubro, moça.

Se lhe dissessem antes, não acreditaria. Necessário se fez o vento mais forte do que ela pensava suportar, e a tarde encardida de um sol amarelo manga. Por que, ao falarmos da felicidade em nós mesmos, o fazemos em terceira pessoa?

Outubro começou quente e apressado, e foi notado somente no meio da tarde. Tanto trabalho naquele dia.

A moça que pensava que seu maior intento para as próximas semanas seria desenhar, calcular e rabiscar todos os próximos dias do ano, não contava com uma coisa. Deixou as janelas abertas, justamente por achar que estava no controle do chão, do céu, do mundo todo.

Enquanto misturava algumas tintas sem cor - ah, ia forjar um amarelo que convencesse ao menos por fotografia ou por relance, a quem passasse assim, longe, longe - as cortinas se encheram de ar, alcançando o meio da sala.

Justo na noite em que telefonou para avisar que não iria, preferindo dedicar-se a um boneco de pano, que não existe além das declarações exacerbadas e tentativas de parecer sincero. Justo na noite que separou para que nada acontecesse: as cortinas!

Depois, não se falou mais naqueles rascunhos - a estratégia que tanto elaborou.

Ah...pés descalços na meia-calça; achocolatado gelado; meia luz; platéias de teatro; suco de clorofila, piadas, danças de rostos colados que se esquecem dos pés; canções desafinadas, risadas que não se cansam; beijos na mão, nos olhos, no rosto, estalado, antes de deixar o sono tomar conta; conversas longas; fins de tarde e seus pores-do-sol, janela aberta por toda a madrugada, pra que a claridade chegue antes da confirmação de que o presente é real.

- Moça, está esquecendo suas sacolas...

Ela sequer olhou pra trás. Agora vive assim, como meninas de cacholas no mundo da lua. Desde a noite das cortinas. Depois de lá, todos os dias foram de presentes. Um seguido do outro. Sem cessar.

- Outubro é o mês mais bonito do ano!

- rs...sim, eu lhe disse, moça.

E ela seguiu sem sequer levar as sacolas. Aprendeu a ser inteira, sem acessórios.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Ao sócio, com atraso

Descobri que me arrependo do que sinto.
Mas não vim para dizer isto. Eu quero que você saiba que eu precisava ter vivido cada grão de areia que incomodou sob os meus cabelos essa cachola teimosa.
Você, como um bom teimoso, poderia ter me entendido mais, e quem sabe sugerido umas canções para amargar mais e mais toooda a tristeza. Mas, você é assim como eu, se afasta de palpitar quando o outro precisa de colo, pro outro descobrir que se esticar dói mas alivia muito mais.
Escrevo para dizer que estive muito ocupada por estes dias tirando dos móveis os objetos que eu não quero mais. E são eles tantos, que eu nem percebia enquanto morava aqui.
Ando ocupada com uma companhia que me faz falar bobeiras sem nenhuma culpa, como as que deixamos naquela escadaria, há três, quatro anos...será que ainda estão lá?
Estou vivendo em férias escolares da terceira série, sem horários para dormir ou resolver sair pra qualquer lugar com o menino das palavras tão desastradas e bonitas. Depois de tanto tempo, AGT, tomei café da manhã quase na hora do almoço, com a maquiagem por tirar, e dormi até anoitecer de novo, para descobrir que fui desperta de verdade e não mais um daqueles dias de calmaria que precedem o tombo.
Estou de pé, AGT. Estou com saudades de te dizer coisas boas. Me perdoe pelas tantas e tediosas tardes de chororô.
Dia desses, voltei pra casa de sapatos na mão e um pedaço do vestido rasgado. Parecia aquela pessoa boba que você conheceu anos atrás. Ela sou eu agora. Estou de volta, AGT.
Não sei qual dia da semana é hoje, nem o dia do mês. A sensação é boa, muito boa.
Aqueles caras que iam me examinar, se foram. Ou melhor, eu não fui. Me dispensei.
Não faço a mínima ideia do que vou fazer amanhã - eu nunca estive assim.
Estou no presente, AGT.
Acabo de chegar da praça, onde me sentei ainda quando havia sol, para conversar sobre coisas que não existem, mas que a gente cria o tempo todo, como respirar. Tenho experimentado uma sinceridade que eu não imaginava existir. Uma sinceridade cortante, mas que adoça antes de assustar.

Tenho me sentido doce. Adormecida. E vivo consertando um sorriso flácido que fica pendurado na boca.
Estou certa de que você adoraria estar hoje numa mesa, com duas pessoas, conversando sobre sua vida. Tenho certeza que você me deixaria encabulada, como fazem os pais orgulhosos, como numa ligação telefônica, numa sexta-feira de dezembro de 2007, da qual você nem deve se lembrar.
Saiba que estou bem.
Obrigada pelo cuidado, meu amigo AGT.