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domingo, 19 de junho de 2016

florindo

Depois de bastante tempo sofrendo, a gente perde a mão com as coisas simples da felicidade. Em seis anos, provavelmente é a primeira vez que eu me sinto bem de verdade. De verdade...sem ser aquelas respostas que a gente dá quando não quer esticar o assunto. De verdade...sem ser espremendo aquele pedaço de medo que queria reinar a todo instante. De verdade, sem o desânimo que durante tanto tempo me tirava vontades como passar perfume, abrir a janela, tirar os óculos escuros.
Primeiro desconfiei que não pudesse ser pra mim todas aquelas alegrias. Eu não mereço, sei...mas pensava que merecia ainda menos. Muito menos. 
Depois fiquei olhando para ela, retomando aos poucos a lembrança de como é viver feliz. O estranhamento durou muito tempo - talvez a metade do tempo. 
Porque nessa hora a gente acaba dando vez à ideia de que talvez seja só mais uma cilada.
O problema de deixar de sofrer é que às vezes a gente nem percebe que a dor foi embora. A gente fica ali com o cheiro da dor, a sombra da dor, o espaço vazio da dor. 
Então depois de um bom tempo eu entendi que era seguro faxinar. Fui remexer nas coisas, cobertas e espinhos. Manipular pela última vez as feridas que manipularam meus dias por tantos e tantos espaços do calendário.
Nessa hora parece que a dor ainda está. Parece que ela ainda vai reinar. Mas só parece.
Fui adiante com a faxina. Encarei com vontade as marcas dos arranhões. Refiz caminhos. Falei. Confessei. Assumi.
O medo do medo foi perdendo força. O medo de novos tombos foi ficando pequeno.
Então foi quando eu visualizei pela primeira vez um espaço amplo. Havia espaço em branco, havia um caminho sem qualquer pegada. 
Algum tempo foi gasto ali apenas olhando. O medo não estava. O desânimo não estava. Ninguém me observava mais.
Contemplação. Gratidão. Gratidão.
Com ela veio o perdão. O perdão a mim, ao meu jeito de sofrer, à minha escolha em adoecer.
Perdoada, certamente foi quando pisei na próxima importante etapa.
Além do caminho, agora existiam flores.
O que eram flores mesmo? Para que serviam?
Outra pausa para contemplar.
De repente as flores já eram muitas. E havia sol. E chegavam pássaros. E uma cachoeira abastecia uma corrente de águas que não parava de correr.
Deu vontade de entrar. Vontade de mergulhar.
E percebi que o sol brilhava já havia um bom tempo. Mas só agora eu sentia a necessidade de me banhar nele. De passar um tempo sob o calor.
Perdoada. Aquecida. Florindo.
Abri meu email, comecei a te escrever.
Depois achei melhor jogar-me aqui, para você ler quando vier me procurar.
Sócio...não sou de prometer muita coisa, mas hoje eu vim te dizer que eu prometo nunca mais sofrer.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

O mesmo

Sócio, outra noite perdi o sono no meio da madrugada e fiquei vagando com os pensamentos em busca de algo bem bom, que me fizesse sonhar quando o sono voltasse.
Veio o palpite de ler alguma coisa aqui e acabei lendo o blog todo. Quando o sol já espreguiçava, eu me encontrava no centro da nossa amizade.
Como já fomos felizes! Como somos felizes pelo que já fomos.
Pela primeira vez, não senti saudade daquela escadaria onde venta - a escada mora em qualquer lugar.
Ainda somos nós mesmos.
Ainda somos o mesmo.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

não continue

Sócio, não gosto de ler textos como este abaixo. Conheço bem essas angústias, mas há alguns anos penso que desenvolvi a arte de não senti-las.
Tenho vontade de arrancar seu traseiro da cadeira, puxar suas mãos até o carro e dirigir até aquela escadaria - aquela que agora acho que é nossa.
Talvez as coisas sejam muitíssimo melhores do que estamos enxergando. Aliás, semana passada descobri que todas as escadarias de Sampa são nossas - sim! Todas!
Andei por muitas delas e senti o vento no rosto, de direções antes não imaginadas, trocando os fios dos meus cabelos de um lado para o outro, e esclarecendo em vez de confundir.
Sócio, todas as escadarias de Sampa são nossas...E eu preciso confessar que olhei um pequeno pedaço de parede de um lugar que você adora, mas eu não quis conhecê-lo sozinha - é você quem vai me levar lá, ok?
Tudo é muito mais bonito do que parece.
Sócio, eu interrompi processos dolorosos muitas vezes, posso dizer da necessidade de cortar fantasmas. Tudo é muito mais mutável do que parece! E nas sequências de tentativas de levantar, ganhei força e agilidade, como aprender a cortar flor do medo muito antes de nascer o broto. Cortar a iminência da existência de qualquer pedaço de chão distraído. Não distraia seus olhos.
A vida é muito mais bonita do que parece.
E você é lindo! Não perca o vento!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

ao blog, com carinho

Ah... querido blog! Tanto tenho pensado na gente, em nós três!
O sócio, você, eu. O sócio e eu aqui. Você conosco pelas férias, pelas ideias...
Tanto tenho escrito - acho que nunca escrevi tanto! - sem tirar os dedos do bolso, ou da bolsa, ou do livro, ou do rosto do menino inseguro.
Tanto tenho escrito somente com verbos no presente tão gritante que se esmiuçam muito antes de valer a pena buscar a pena pra um registro qualquer.
Tanto tenho escrito na cachola de ideias desconexas, que num só contexto me perco nos tantos dedos que mudam a cena segundo a segundo.
Tanto tenho visto surpresas, sentido proezas, lembrando-me da gente, o sócio, você e eu... Mas tenho preferido as incertezas - que quando decantam por alguns segundos me dão a quietude da curta contemplação que vai até a próxima iminente eclosão.  

domingo, 5 de junho de 2011

Sobre tudo


Sócio, minha leveza de pensamentos está quite com os 50 quilos do meu corpo. Estou pequena por dentro, e não pequena de miserável, mas de essencial.
A vontade doida que bateu de organizar as coisas deve ter um significado mais pra dentro da gente do que pensamos. E depois de separar e olhar para tudo, vi o quanto as ideias andavam etiquetadas dentro de mim há muito mais tempo. 
Como se a cura chegasse antes do final dos sintomas, sabe?
Doei metade das roupas, a maioria nunca usadas. Compradas na vontade de adotar um estilo que depois pudesse vir a parecer comigo. Não me adaptei a ser o que eu nunca fui. Doei calçados, brincos, bolsas.
E sem perceber, comprei muito também. E comprei coisas que não se pareceram com quem eu fui até passos atrás, mas que dão o tom daquela que eu vejo hoje quando pergunto por mim. Eu sou muito mais colorida. E ando rindo alto também.
Os sentimentos eu não doei a ninguém, nem deixei estocado no quintal de outros. É precisar tratá-los como o esgoto. Atribuir o que nos pesa à falta de cuidados deste ou daquele, só faz protelar a purificação - que é tão bonita!
Fato é que eu encontrei pelo caminho que eu pensei ser o mais difícil aquela pessoa dá qual te falo sempre. A presença à distância, que nem sonha com o quanto me colore.
Se em outras vezes alguém me completava, sócio, este me transborda. Não me basta ou me alimenta. Ele me interessa. É meu pé de laranja lima do quintal. Minha coleção de vinis. Meu prazer pequeno e simples.
É por quem eu me encanto diferentemente a cada acesso à memória. E posso despertar no meio da noite para lembrar-me de todo o bem que ele me causa, até a hora do despertador.
To sincera da casca ao caroço com as pessoas. E posso falar pra mim sinceridades grosseiras sobre o que me aconteceu de complicado, sem peso, nem dó. Porque eu sou de ferro, sócio. E inteira. Inteiramente plenitude.
Os episódios estão devidamente encadernados. E há tantas folhas em branco na minha frente, que eu tenho medo de afogar-me.
Agora, posso dormir às 20h num sábado. E virar a madrugada de domingo para segunda acordada. É diferente. É prazeroso. É novo. Posso estar pronta pra sair, e decidirmos ficar. E podemos ir ali ou longe sentados no degrau da varanda. E posso ainda me arrumar por uma hora, somente para olharmos um pouco as variáveis da vida com os ombros lado a lado.
Experimentando as mesmas coisas, nos mesmos lugares, com a parceria da cabeça cheia das caraminholas mais fenomenais que eu já fui induzida a imaginar, ainda me espanto, diariamente, com a figura que, distante na geografia, abraça e acompanha.
Com o aprendizado que vem do dono do pensamento mais bonito, mas ainda inseguro e frágil, que não faz ideia do quanto me enfeita e me expõe ao sol mais raro e milagroso.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

E você, que andava tão sozinho

Porque não é de hoje que tenho colado na porta do guarda-roupas um texto-crônica-sonho teu. Fala de vazio e de multidão dentro de você. E da recusa em ter que cuidar de alguém que ainda nem conhecera - e nem estava por vir!!!
Gosto daquele texto. E gosto de você porque você aprende. E, ao aprender, confessa.
E agora devo colar este texto bem ao lado daquele outro. Você, um aprendiz confesso.

Ah....e também gosto de você porque você chora. Eu confio muito mais em quem chora.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sobre a minha cabeça

Há quase 40 horas aguardo um e-mail com alguns materiais que eu preciso muito, o que me leva a atualizar a página freneticamente e deixar o note ligado desde terça-feira. Mas chegou o seu e-mail, e me arremessou para um lugar que eu só encontro aqui, dentro da minha cabeça, e que há muito eu não me lembrava de visitar.

Seu e-mail escancarou o quanto é fato que eu não preciso de mais nada. Sou exagerada, reclamona, crítica, crítica, crítica, e são todos caprichos, nada além. O lugar onde temos a memória do vento no rosto na escadaria, a vontade de protelar o fim do passeio prometendo que no próximo metrô a gente embarca, a chuva lá fora, que chegou pra disfarçar os olhos embaçados, a apostila que a gente odiou, mas você insistiu que voltássemos para eu buscá-la na mochila que ia nas suas costas, as tantas lembranças.
O curto passeio a pé em Penápolis, depois da padaria, as horas esticadas em frente ao hotel, eu esperando você telefonar de manhã para se despedir de novo, você indo embora evitando a vontade de telefonar. As tantas ligações de madrugada, até 3h, 4h da manhã. Isso nunca foi mesmo amizade, isso não tem nome.
Das tonalidades e suas variações a respeito dos departamentos diversos que você citou, eu não posso dizer. Eu ainda não vivi nada disso, e sempre que, se mesmo impotente eu lançar meus pitacos moralistas ou mimados, sei que sempre vou logo me arrepender, e me achar babaca. Posso mesmo, e sempre vou, andar preocupada com você, ainda que eu não te diga. Mas sobre a minha cabeça e você, eu posso dizer. 
Não me recordo do gol contra que você citou, mas me lembro de vários dias em que eu quis dançar contigo palavras rápidas e atrevidas, pelo puro prazer estético que elas sabem dar (é como o efeito de um vestido rodado; ao toque de uma salsa, ele precisa e deve aproveitar). Ousamos várias vezes por isso, e por nada além.
Um dia essa cabeça propôs que nos lembrássemos de todos os amores que um dia me tiveram na mão (ops...que eu colocava na mão e esmagava, né?). Você sempre os conceituava rapidamente para logo apelidar cada um deles, conforme a característica que representava maior discrepância com o que você sabe que eu sou. E zombamos de mim por minutos deliciosamente ousados. Você não é homem nem mulher pra mim, você é um pedaço dessa minha cabeça.
S
eu e-mail hoje trouxe tantas coisas bonitas que eu não saberia respondê-lo. Não sei por qual sensação, mas chorei um pouco em parte dele. Sempre vai ser um presente saber que você garante a manutenção daquilo que acha precioso - e que eu sou parte disto. Suas palavras foram daquelas que trocávamos há alguns anos, e que podem ter por algum dia nos levado a alguma confusão – a diferença é que agora não há confusão. 
Ah...sobre o seu gol contra, eu nunca mais me lembrei dele – naturalmente, mastigo muito devagar, mas depois dessa etapa, a digestão é definitiva, e eu me esqueço dos sabores. Tem sido assim também com os amores, lembra? A saudade precisa ser saudade até seu último dia, e no dia seguinte ser pedaço de jornal velho. O mesmo com os embaraços que posso ter sentido. Pedaço e jornal velho, que se um dia quisesse contar história, ninguém pararia para crer. 
Obrigada pelo e-mail sobre a sua cabeça. E não se esqueça que eu sempre vou pensar que isto não é mesmo amizade. É palavra não inventada, porque até hoje aqueles que chegaram perto de vivenciar, devem ter se assustado e partido sem provar. Aproveitemos nós disto que ainda não se criou!
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(Por isso gosto tanto da amizade em "A menina que roubava livros")
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Você é


    Marisa Monte sempre esteve entre minhas melodias de ouvir enquanto estudo, ou enquanto paro para não pensar em nada - nem mesmo na letra da música. Hoje, essa canção me chegou como muitas coisas bonitas que convivem ao nosso lado minuto a minuto, mas que notamos somente um dia, um dia qualquer, e então finalmente lhe damos moldura.
    Muitas outras coisas na vida são assim: ter filhos, parar de fumar, deixar pra trás uma briga antiga...coisas que poderiam ser simples se tivéssemos reparado nelas anos antes, mas que chegam exatamente quando há maturidade para que aconteçam - logo, chegam na hora exata.
    Esta música não passa de uma carta escrita em 1991 por uma prima da Marisa (Monte), depois de uma conversa que tiveram sobre anseios e ansiedades. A sorte foi tanta que ninguém menos que Nando (o Reis, que não é nada meu, uma pena!) estava com ela, e ficou com a carta, apreciando. Ao voltar de uns compromissos, Marisa Monte ganhou uma música, uma canção sobre seus próprios tesouros e qualidades. Por modéstia, ficou anos sem cantá-la. Por distração, fiquei anos sem percebê-la.
    Nando Reis botou o texto em terceira pessoa, dizendo então "ela". Hoje, retorno à escrita original, e digo "você" - que pode tanto ser eu, que pode tanto ser você, AGT. Ou cada um é uma linha diferente, mesclando-nos, se somos mesmo o reflexo do que o outro queria ter sido, em outros tempos.
    E quando todos os dias parecem iguais, lembre-se de que precisamos também deles, para o constraste dos dias diferentes. "Despreocupa-se e pensa no essencial. Dorme e acorda"


Gerânio

Você que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes

Sente e vive intensamente
Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos

Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda

Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes
Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga
Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema
Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda
Estou com saudades e penso tanto em você

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda

(Composição: Nando Reis, Marisa Monte, Jennifer Gomes)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fim?


Hoje parece confuso, mas dê o próximo passo. Sei que estou boba demais para você nos últimos tempos. A felicidade me chegou desengonçada, a coitada, fazia tanto tempo que não vinha, que agora quer ficar assim, no meio da sala, interrompendo a passagem. Interrompendo talvez um lamento que você quisesse dar. Não que eu não esteja ouvindo seus murmúrios, mas não estou acreditando, é diferente. Penso sim que a conta seja simples, e que essa subtração meio súbita não passa de um "mais" a mais, a chegar após este próximo passo.

Não que eu não acredite que sua barriga ainda gele, ou seus dedos vivam à caça de um vício que não faça aquela sequência de números que você não esqueceu, mas não telefonar não é deixar de viver, é continuar.

Todo passo é avanço, isso que quero te dizer. Quando deixa de se entregar, se ergueu uma vez mais, foi seu por inteiro, fez o que era mais que correto, fez o que era mesmo o melhor - a longo prazo? A curto também, acredite. Penso que vivemos acreditando que as delícias que quebram a rotina são no fundo as únicas razões para sairmos de casa todos os dias para repetidas tarefas. E se não temos uma surpresa a esperar, criamos uma - ou mais. E o inventar perde o ponto de parar, por isso ao chegarmos tão longe nos sentimos perdidos ali. E quando nada acontece, ainda que estejamos tentando, é como se tívemos então chegado ao ponto final.

Dê mais um passo. Haverá uma porção de sabores melhores logo adiante. Não pense que não. Li seu recado, entendi como uma simples frase carregou um mundo de sentidos, exatamente como se tudo parasse ali, naquele trecho de fala. Mas é só uma opção a mais, já decidida, é verdade, mas uma alternativa, tão real quanto tantas outras. A diferença é que não precisará optar. É e assim que vai ser - e o melhor vai ser. Olha, um dia inventei que um sonho havia escapado do travesseiro e estacionado logo abaixo da janela, mas era apenas visita na casa do vizinho, e meu coração tremeu me dizendo que estava muito aliviado porque entendeu que há tempos se enganava, mas que agora soube que isso era o melhor - e o melhor vai ser pra você, sim!

Não acredito que se sofre tanto quanto pensamos sofrer. Imaginamos, simplesmente. Dissipe a sensação de fim, talvez falte apenas mais uns poucos passos. Pensando sempre assim, andará muito, pensando que pouco avançou. E quando estiver de olhos quase cerrados, a descansar, um frio no estômago vai lhe fazer saltar para entender que já se chegou muito, muito além, do que seus pés diziam poder pisar.

Acredite em mim. Não tenho garantias a te dar, além do meu sorriso que você não pode ver, e das cores que hoje vivem aqui dentro, e que esta tela não saberá usar. Meu estômago também gela, mas agora eu sei que são aquelas malditas borboletas que prometeram um dia chegar, e eu havia me esquecido delas com o tempo, pensei que fossem bobagens. Não ria da minha cabeça de nuvens. Vem, dê só mais um passo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Ao sócio, com atraso

Descobri que me arrependo do que sinto.
Mas não vim para dizer isto. Eu quero que você saiba que eu precisava ter vivido cada grão de areia que incomodou sob os meus cabelos essa cachola teimosa.
Você, como um bom teimoso, poderia ter me entendido mais, e quem sabe sugerido umas canções para amargar mais e mais toooda a tristeza. Mas, você é assim como eu, se afasta de palpitar quando o outro precisa de colo, pro outro descobrir que se esticar dói mas alivia muito mais.
Escrevo para dizer que estive muito ocupada por estes dias tirando dos móveis os objetos que eu não quero mais. E são eles tantos, que eu nem percebia enquanto morava aqui.
Ando ocupada com uma companhia que me faz falar bobeiras sem nenhuma culpa, como as que deixamos naquela escadaria, há três, quatro anos...será que ainda estão lá?
Estou vivendo em férias escolares da terceira série, sem horários para dormir ou resolver sair pra qualquer lugar com o menino das palavras tão desastradas e bonitas. Depois de tanto tempo, AGT, tomei café da manhã quase na hora do almoço, com a maquiagem por tirar, e dormi até anoitecer de novo, para descobrir que fui desperta de verdade e não mais um daqueles dias de calmaria que precedem o tombo.
Estou de pé, AGT. Estou com saudades de te dizer coisas boas. Me perdoe pelas tantas e tediosas tardes de chororô.
Dia desses, voltei pra casa de sapatos na mão e um pedaço do vestido rasgado. Parecia aquela pessoa boba que você conheceu anos atrás. Ela sou eu agora. Estou de volta, AGT.
Não sei qual dia da semana é hoje, nem o dia do mês. A sensação é boa, muito boa.
Aqueles caras que iam me examinar, se foram. Ou melhor, eu não fui. Me dispensei.
Não faço a mínima ideia do que vou fazer amanhã - eu nunca estive assim.
Estou no presente, AGT.
Acabo de chegar da praça, onde me sentei ainda quando havia sol, para conversar sobre coisas que não existem, mas que a gente cria o tempo todo, como respirar. Tenho experimentado uma sinceridade que eu não imaginava existir. Uma sinceridade cortante, mas que adoça antes de assustar.

Tenho me sentido doce. Adormecida. E vivo consertando um sorriso flácido que fica pendurado na boca.
Estou certa de que você adoraria estar hoje numa mesa, com duas pessoas, conversando sobre sua vida. Tenho certeza que você me deixaria encabulada, como fazem os pais orgulhosos, como numa ligação telefônica, numa sexta-feira de dezembro de 2007, da qual você nem deve se lembrar.
Saiba que estou bem.
Obrigada pelo cuidado, meu amigo AGT.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Você nem soube



Amigo, te digo, a espera pode não ser a melhor opção. Siga. Eu continuarei a optar por ela. Para mim, é na espera que eu sei que já estive no tempo certo, e espero. Por ele. Pelo atraso. Mesmo pelo cansaço da espera.
Ainda que os instantes não sejam jamais os mesmos (pois nunca se repetirá no mundo o cheiro, o som, a luz...e isso não notamos, percebe?), não posso substituí-los em mim. Mas é preciso seguir!
Então vou até lá. Não vou te avisar. Prometo não pensar que dessa vez não sugerimos esticar o caminho parando os passos. Que não conversamos demoradamente. E que não morremos de rir. E que não fomos embora escondendo os rostos, chorando.
Vou me sentar ali, sozinha.

Você não soube. Mas fui apenas para te esperar.

(São Paulo, 30/01/2010)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

brigas (tu)

- hoje eu queria falar dos dias em que dá tudo certo
- então fale e não me de broncas mais, OK?
- porque tem dias que, do nada, tudo dá certo...coisas inesperadas e tal...e mesmo hoje meu dia não sendo um desses, só de não dar tudo errado eu já to satisfeita...mas aí você me vem com essas broncas e tal...meu dia deu errado
- sacuda
- mas vc ta indo tao bem no blog...adoro as surpresas - até as que não são para mim (olha, como sou feliz!)
- pode parar EXAGERADA
- nossa, resignada
- vc é uma flor mesmo
- gostei...to indo blogar - sim, esta conversa
- pronto, fique a vontade como eu já mencionei...não tire nada, nem seus traços ciumentos e apaixonados
- faz-me rir - e torça pra eu não excluir esta tua última alfinetada

Adoro você - mas isso não faz parte da conversa.

domingo, 14 de dezembro de 2008

sempre voltar


Precisou falar com ele - enquanto ele ensaiava uma mensagem pra dizer nada. Sempre convites para danças, que ele não recusava. Convites para dança. Só sabia reaproximar-se convidando-o para uma dança. E ele não sabia, mas não recusava. E por saber disso, esquecia o tempo. Ele sempre dançaria. Fosse injusta. Fosse omissa. Fosse distante. Voltaria para convidar-lhe.
Não cuidava do brilho nos sapatos, sequer passava o vestido. Se a música fosse a mesma todas as vezes, nem se lembraria de atentar. Entrava e saía com a petulância de quem mora só numa grande pedra por cima das nuvens e jamais convida quem passa as tardes olhando, à espera de uma fresta de janela aberta. Fechava todas as portas com a mesma chave, depois descuidava dela. Mandou fazer um muro alto, mas deixava aberto o portão. No fundo, tinha ciúmes. Mas ele diria por várias vezes que não precisava. E, que mimada! elogiava-lhe tanto e sem motivos, que a ela poderia chegar a parecer eterno. Fechava a cortina, mas deixava aberta a janela.
E por falar nela, havia um vento que só batia ali - onde os dois resolvessem dançar. A primeira vez foi numa escadaria, e ela queria carregar degrau por degrau até sua casa na pedra. Queria fazê-lo jurar que voltaria. Queria uma promessa. Queria roubar o vento. Controlar o vento. Exigir. No fundo, tinha ciúmes. Mas ele diria por várias vezes que não precisava. E, que mimada! elogiava-lhe tanto e sem motivos, que a ela começou a parecer verdade.
Nunca mandou-lhe cartões ou telegrama desejando melhoras. Mas, nos dias em que a sensibilidade lhe faria chorar em inauguração de gôndola de supermercado, é ele quem ela põe em todos os espaços da cabeça. No fundo, sente falta. Mas ele mostraria por várias vezes que não faltaria. E, que mimada! elogiava-lhe tanto e sem motivos, que um dia a ela começaria a parecer eterno. E é.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Certeza

Eu o fazia rir com histórias que a ele chegam a parecer irreais, de tanto que ri, quando tive que sair. Pedi que esperasse. Não esperei por isso. Já não sabemos dizer há quanto tempo não conversamos sobre assuntos importantes. Sobre o que nos preocupa de verdade ou nossos medos. Não sinto mais medo. Ele parece tê-los mais do que já sentia antes. Mas já não reclama. Senti saudade da nossa dança, mas a entendi como uma fase que, diferente de algumas outras, talvez volte. E acredito que volte mesmo. Quando menos estivermos esperando e mais precisarmos dela. Lembrei do blog, que eu não abro há dias. E dei de cara com um texto. Não me disse nada, nem enviou antes por e-mail. Não perguntou. Nem sei se era para eu ler. Acho engraçado o jeito dele ser sério e fiel ao que às vezes eu invento para poder dançar um pouco. Acho engraçado o quanto ele experimenta. E como embarca nas minhas invenções, manias e vícios como quem olha antes à volta para ter certeza de que ninguém está espiando. E quando acesso o blog tem lá um pequeno texto, que ele fez talvez sem pensar que eu fosse ler. Ou se fez já esperando, continua esperando. Sem pressa. Não temos mais pressa.
Senti saudade de ouvir Buena Vista. Sentir o som preencher todo o espaço onde o tempo se esforça pra mover ponteiros. Saudade de deixar a nota dançar como queira. E o ritmo ocupar todos os sentidos. Fechar os olhos. Privilégios tantos estes nossos, de não entender e, ao procurar, ainda que não achando respostas ou saídas, até se esquecer da busca. De tanto notar o caminho.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

"Nem um"

Tenho conversado pouco com você, muito menos do que gostaria. Ao mesmo tempo, e justamente devido a isso, tenho conversado pouco comigo mesma. Não sei qual dos silêncios quebrou primeiro a dança, mas eles agora são par. Por estar quieta por dentro, sem nenhuma música que venha da minha cachola, não posso fazer rima, imaginar, produzir os passos para o nosso salão branco cercado por réguas e barras de configurações. Não gosto de aparecer sem ao menos uma risada barulhenta e perturbada, do jeito que você acha engraçado. Incomoda estar chata, cinza, sem vento, dizendo nada além do que gente não-per diria. Para isso, temos as pessoas normais e menos incomodadas ao nosso redor. Nossos momentos são de liberdade, mas, ao mesmo tempo, intensidade – nem que seja reclamando da falta de vento. A reclamação tem que virar um dramalhão, até um dizer que o outro reclama é “sem motivos, sim, senhor (a)”.
Ao mesmo tempo, pelos dias em que estamos sem conversar, tenho me esquivado de mim mesma, despertado e pulado da cama no segundo seguinte, passado a noite toda na televisão, sem ligar o computador há uns 10 dias, para não ouvir músicas, rever arquivos, textos e, principalmente, o salão branco cercado de ícones, onde eu tanto queria entrar, mas sei que não ficaria. Por estar cansada de dançar à distância. Hoje resolvi retomar a velha rotina de computador mais música mais salão branco, porque a vontade de fazer alguma coisa que modifique nossa comunicação me lembrou do quanto é difícil isso acontecer por enquanto, e que, mesmo que não seja a melhor dança a dos passos via e-mails, nos mantém em forma e em dia com a SDDS, que exige, lembra, cobra. Todos os dias.
Sentia-me devedora de tantos e-mails, mesmo sabendo que eles não precisam ter continuidade. Mas prossigo com o rito de querer tempo e vento para respondê-los porque o que provocam enquanto leio faz com que eu queira prolongar alguns assuntos, questionar outros, deslizar pelo salão com este e aquele.
O que incomoda mesmo é não esperar pela aparição de um texto sobre um assunto inusitado ou um tema trivial. Porque sei que dificilmente ele virá, já que também está silencioso. Por isso hoje estou aqui improvisando, sem passo ou sapato novo pra mostrar. Ouvindo boleros, descansando, pisando sozinha nesta tela que parece não deslizar. Ah! Mas como eu queria estar no meio de uma dança! Os pés estão um pouco endurecidos, ou como se alguém tivesse amarado os cadarços no tempo em que passei sentada. Agora me arrependo de não ter aproveitado para retocar a maquiagem. Poderia ter penteado os cabelos ou tomado uma taça de vinho, enquanto esperava. Que vontade de voltar a dançar! E nem sei como chegar ao salão. Penso que terei que começar tudo de novo, como os iniciantes. Deixe este e-mail de lado. Por enquanto é só uma caminhada descompassada de pés sujos por um salão de luzes apagadas. Continue sem calçar os sapatos. Estou há tantos dias sem salto que nem sei onde posso tê-los deixado. Vê que pela primeira vez não quero todas as regras. Mão direita nas minhas costas. Estenda o braço esquerdo, palma da mão voltada para você, onde meus dedos se ajeitam, agora sem unhas roídas. Meu braço esquerdo abraça. Face direita paralela à outra face direita. Pés intercalados anulam qualquer risco de trombadas ou pisões. E deixam de pedir atenção aos olhos, que podem ficar abertos ou não. Ainda aceita dançar comigo?
Maio, 2007