sexta-feira, 13 de julho de 2007

"Nem um"

Tenho conversado pouco com você, muito menos do que gostaria. Ao mesmo tempo, e justamente devido a isso, tenho conversado pouco comigo mesma. Não sei qual dos silêncios quebrou primeiro a dança, mas eles agora são par. Por estar quieta por dentro, sem nenhuma música que venha da minha cachola, não posso fazer rima, imaginar, produzir os passos para o nosso salão branco cercado por réguas e barras de configurações. Não gosto de aparecer sem ao menos uma risada barulhenta e perturbada, do jeito que você acha engraçado. Incomoda estar chata, cinza, sem vento, dizendo nada além do que gente não-per diria. Para isso, temos as pessoas normais e menos incomodadas ao nosso redor. Nossos momentos são de liberdade, mas, ao mesmo tempo, intensidade – nem que seja reclamando da falta de vento. A reclamação tem que virar um dramalhão, até um dizer que o outro reclama é “sem motivos, sim, senhor (a)”.
Ao mesmo tempo, pelos dias em que estamos sem conversar, tenho me esquivado de mim mesma, despertado e pulado da cama no segundo seguinte, passado a noite toda na televisão, sem ligar o computador há uns 10 dias, para não ouvir músicas, rever arquivos, textos e, principalmente, o salão branco cercado de ícones, onde eu tanto queria entrar, mas sei que não ficaria. Por estar cansada de dançar à distância. Hoje resolvi retomar a velha rotina de computador mais música mais salão branco, porque a vontade de fazer alguma coisa que modifique nossa comunicação me lembrou do quanto é difícil isso acontecer por enquanto, e que, mesmo que não seja a melhor dança a dos passos via e-mails, nos mantém em forma e em dia com a SDDS, que exige, lembra, cobra. Todos os dias.
Sentia-me devedora de tantos e-mails, mesmo sabendo que eles não precisam ter continuidade. Mas prossigo com o rito de querer tempo e vento para respondê-los porque o que provocam enquanto leio faz com que eu queira prolongar alguns assuntos, questionar outros, deslizar pelo salão com este e aquele.
O que incomoda mesmo é não esperar pela aparição de um texto sobre um assunto inusitado ou um tema trivial. Porque sei que dificilmente ele virá, já que também está silencioso. Por isso hoje estou aqui improvisando, sem passo ou sapato novo pra mostrar. Ouvindo boleros, descansando, pisando sozinha nesta tela que parece não deslizar. Ah! Mas como eu queria estar no meio de uma dança! Os pés estão um pouco endurecidos, ou como se alguém tivesse amarado os cadarços no tempo em que passei sentada. Agora me arrependo de não ter aproveitado para retocar a maquiagem. Poderia ter penteado os cabelos ou tomado uma taça de vinho, enquanto esperava. Que vontade de voltar a dançar! E nem sei como chegar ao salão. Penso que terei que começar tudo de novo, como os iniciantes. Deixe este e-mail de lado. Por enquanto é só uma caminhada descompassada de pés sujos por um salão de luzes apagadas. Continue sem calçar os sapatos. Estou há tantos dias sem salto que nem sei onde posso tê-los deixado. Vê que pela primeira vez não quero todas as regras. Mão direita nas minhas costas. Estenda o braço esquerdo, palma da mão voltada para você, onde meus dedos se ajeitam, agora sem unhas roídas. Meu braço esquerdo abraça. Face direita paralela à outra face direita. Pés intercalados anulam qualquer risco de trombadas ou pisões. E deixam de pedir atenção aos olhos, que podem ficar abertos ou não. Ainda aceita dançar comigo?
Maio, 2007



Um comentário:

Graziela disse...

tem blog e nem me avisou!!!!
tá fudida!