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terça-feira, 1 de julho de 2014

Ouça o som do céu


Na noite de hoje, Penápolis silencia diante do falecimento da querida senhora Cecília Rahal.
Bem mais que biografia, queremos lembrar a serenidade do seu sorrir, que pairava do andar à voz. Dona Cecília é tão exemplo, tão linda, tão especial, que emudece qualquer tentativa de verbalizar.
Tive a sorte grande de ser convidada por ela e pelo Sr. Fayz Rahal para ensinar-lhes a dançar valsa! Sim, eles tinham a tarefa de bailar em uma festa de família, e eu era professora de dança de salão.
Assim, passei alguns dias na sala da casa deles marcando os compassos da valsa. Que sorte a minha! Ensinar algo que eu tanto amo, mas que é tão pequeno, a uma mulher tão grandiosa! Eu a ensinei um passo, diante da imensidão de caminhadas que ela já trilhou. Quanta gratidão a Deus eu tive por aqueles dias.
Dona Cecília era uma joia preciosa da Igreja Metodista Central em Penápolis, mas foi na cozinha de sua casa, diante de uma xícara de chá, que pude sentir de pertinho o aroma de Deus saindo de cada delicadeza de seus gestos.
Ah...Dona Cecília, sua partida só me deixa a vontade de esforçar-me para um dia reencontrá-la e ensinar-lhe outros passos de valsa. Posso ouvir daqui a melodia! Que festa linda, quanta alegria, que som lindo que ouço agora vindo do céu.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

de uma despedida

"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus".
(Fernando Pessoa)

Com estas palavras, e outras tantas, nos despedimos ontem do nosso tio Nivaldo, irmão do meu pai. Uma despedida longa, indescritivelmente triste, mas ainda assim bonita, muito bonita. Abraços que não sabemos calcular e que trocaram acima de tudo as intenções de que algumas coisas continuem.
Num único dia, vi várias pessoas se modificando por dentro, readequando alguns sentimentos, experimentando outros e, em especial, descobrindo que algumas tragicidades tiram a tinta de páginas cheias de caos anteriormente importantes. Manifestações de vida diante de uma notícia de morte.
Homenagens e tantas lembranças contadas pelas pessoas que puderam conhecê-lo de perto e absorver lições dos modos um tanto debochados. Hoje penso que é dele que herdei o sarcasmo. Debochava ele da vida? Talvez...mas é certo que debochava da morte, que não deve ter conseguido convencê-lo. Ele foi quando quis.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Tempo perfeito, tempo mano velho!

"Se você tá sofrendo por causa de um amor perdido, eu tenho más notícias: não há nada que você possa fazer e não há ninguém que possa ajudar.Na melhor das hipóteses, você vai ter um amigo paciente pra levá-lo a um bar e ouvir suas queixas, e eventualmente buscar você em um bar e levá-lo pra casa com segurança nos dias em que você se comportar feito um louco.
Na verdade até existe alguém capaz de curar sua dor, mas esse alguém não costuma ter pressa. Ele se chama tempo.
Portanto, procure levantar sua cabeça e dar um passo adiante, por menos que seja, pq você ainda tem um longo caminho a percorrer dentro deste inferno.
Ter pena de si mesmo não vai ajudar em nada. E por mais que vc não acredite, eu posso garantir que você sente algum prazer em cultivar este sofrimento. Sim, estar triste é uma forma de exercer a paixão quando o alvo dessa paixão já se foi. Você está usufruindo seu direto de viver eternamente apaixonado. Isso é ótimo, prova que você é um romântico. Mas, coisas otimas não costumam ser baratas e você tem que pagar o seu preço.
Em algum momento tudo isso vai passar. E, neste caso, quando o furacão for embora, ele não deixará destroços. Tudo estará em seu devido lugar, como se nada tivesse acontecido.
Você vai recuperar suas horas de sono, vai se sentir revigorado, vai tá feliz consigo mesmo, vai levantar sua auto estima, você vai estar pronto pra entregar seu coração a outra pessoa, mesmo correndo o risco de partí-lo em mil pedaços novamente. Porque o amor sempre vale a pena."
(texto da campanha publicitária do Serenata de Amor)






sábado, 28 de maio de 2011

Antes que deixe de ser ontem

Antes que ele deixe de ser ontem, ficando ainda mais pro fundo da gaveta, e que os remédios causem menos confusão, o Chapeleiro Maluco, o tempo e eu lhe contaremos uma história.
Vou lhe contar de realidades aparentemente inventadas, para isso chamei o Chapeleiro. É nele que está toda dose exagerada do inimaginável que você não possa aceitar. E o tempo, este "mano velho", é o nosso convidado de honra.

2h43 - Depois de uma hora inteira com três cochilos e quatro ameaças de perder os sentidos (ei, essa que vive a desmaiar não sou eu?, pergunto - faz cara de sarcasmo o Chapeleiro), ela disca para a última pessoa que gostaria de discar - não de ver, apenas de discar, por incômodo mesmo.
Mas o celular deu de inventar que os números não existem e anda aprontando, não é de hoje.
No escuro, a luz do celular ainda acesa, passeava por outros nomes que lhe dessem liberdade para pedir ajuda quando o aparelho vibrou escancarando um nome, no mínimo, inusitado para aquele horário. (Ei, Chapeleiro, calma lá! Nem tanto! Horas antes você havia despachado um "cadê você", que por erro de digitação foi para o contato debaixo, e disse que tentar consertar não seria preciso! Agora se vira!).
Mas o número saltou discreto, direto, objetivo. E incisivo. Justo diante dela, que chamava por socorro. Tirou o olhar, depois devolveu a atenção para a tela, tudo para ver se ela se apagaria. Que horas seriam? Franziu a testa, doía o estômago, lembrou-se do medo de perder os sentidos, tinha frio e dor. Parou de pensar e atendeu. 
Eles não se falavam há apenas semanas ou menos que isso (então, onde está o drama?) e tinham uma liberdade pra soltar palavras que quase não cultivava com ninguém. Que cultivara ao longo da vida com raros quatro ou cinco cabeças malucas. Deu tempo dela responder o "onde você está agora?" e contar o que sentia. Ele desligou e ela tinha que procurar as chaves e chegar sem tombos até o portão. Pouco fácil.
E a hora avançada? Que horas seria? A situação constrangedora de ser socorrida pelo improvável fazia toda a pirofagia de dúvidas. O que mais seria um encontro na madrugada, Chapeleiro? Tem cheiro de uma só coisa.

Ele demorou o suficiente para que ela, ao ficar de pé, cambaleasse; pedisse ao Chapeleiro um pouco de sal e engolisse em excesso. Tomou, sem água, um remédio pro estômago - aquele que dá muito soooooo....no. Teve frio, imenso frio. Os dentes batiam sem pausa. Depois, o corpo cansou.
Abriu o portão sem muita força e enxergava pouco. Mas cabia a lembrança (e sempre se lembraria) da fatídica vez em que ele passou pelo portão às pressas, com crachá de visitante indesejável - coisa que nunca fora, na verdade.
A culpa, a vontade de sempre pedir desculpa enquanto existisse o portão, tudo ali, com a imensa dor no estômago e a falta de equilíbrio. Ele chegou no mesmo portão. E lhe deu um abraço para cortar o frio. Terminou de girar a chave ainda sustentando o abraço, com o qual entrou. 
- Vamos ao hospital.
- Claro que não! Óbvio que não!
- Ué, mas você tá mal!
- Eu sei, mas vou passar mais mal ainda entrando num hospital do seu lado. Bizarro! Eu não vou, de jeito algum!
Por incontáveis vezes, ela pensou perder os sentidos. E a dor no estômago deixava tudo confuso demais. Aceitou o abraço como se não tivesse braços. Tinha sono e não conseguia vê-lo, mesmo com as luzes acesas. Deixou-se - ela não tinha nem outras duas ou três ideias na cabeça. O sono vencia, a dor vencia, a fraqueza vencia.

Como observou o Chapeleiro, no mais quase tudo foi silêncio. Acordou por dez ou mais vezes. E ele, percebendo, apertava os braços em volta dela, que reclamava do estômago uma, duas, três, dezenas de vezes. O remédio fez rápido a sua parte. E toda vez que despertava, ela se assustava com aqueles braços em volta.
Acordou com a dor recomeçando. Pensou em correr para onde não ficasse sozinha. E fez isso imediatamente. No caminho, teria o tempo para sentir toda a vergonha que carregava pela companhia tão desajustada para uma noite de dor e xilique. Não deu tempo. O telefone tocou, e lá vai saltar o nome improvável de novo. Ela corou, e sorte que ele não viu! Da próxima vez, pensou, passa mal mas não passa por isso de ficar colorida, tentando achar palavras que agradeçam.
O desajuste pra ela não estava só no socorro, nem no abraço, mas no papel que ela o via fazer. Por que as pessoas tem que ser uma só pela vida inteira? E por que as estranhamos quando as vimos assumindo papéis distintos? O improvável pode ser muito melhor. Obrigada, Improvável da madrugada de ontem, por me deixar constrangida, ao me lembrar da nossa incapacidade de ser natural quando uma pessoa sobre a qual já pensamos tantas coisas diferentes, em momentos emocionalmente diferentes, e tempos diferentes, se faz mais uma vez, mas pela primeira vez forte assim, diferente diante dos nossos olhos e se mostra alguém muito melhor.


domingo, 24 de abril de 2011

Um encontro para 2004

Eu não lembrava que ele me chamava de "vó". Eu não me lembrava de tantas coisas!!! Coisas que eu não teria esquecido em outros tempos. Eu fiquei tão mais leve desde o último outono descobrindo a delícia do espaço que se abre quando se joga fora o que é inutilizável, mas, as memórias?
Marcamos um encontro - e eu tive medo de comparecer. Medo de parecer menos medrosa - e dos medos eu ainda me lembro um pouco. Eles davam o tom. E nada teria sido merecedor das melhores lembranças se não fosse aquele medo.
Mas sempre nos encontramos por facetas tão distintas. Vários encontros dentro de um mesmo encontro. E um encontro único por meio de tantos encontros. Várias conversas contínuas e complementares. Nenhuma delas previsível e nada nunca definitivo.
Mas ontem marcamos um encontro e não fomos.
Ouça: não repita encontros dignos de moldura se os anos já deixaram vocês pra trás.
Ontem eu descobri que eu não me lembrava de nada! Logo eu! Eu e as memórias! A estas memórias que acabaram, por estar entre tantas outras, sendo espetadas e murchas como bexigas, hoje as minhas desculpas. E a minha retratação.

- eh pq vc eh um simbolo de coisas boas q eu nao devo lembrar o tempo todo
- vc eh uma dakelas pessoas
- e faz ANOS que a gente nao se fala..vc deveria saber primeiro onde pisa..rs
- a geografia muda com o tempo
- q a gente fika uma cara sem conversar, e qdo o faz parece q foi ontem a ultima vez?
- sim...tbem acho
(...)
- que coisa nao...é uma afinidade nociva..ou nao
- certas coisas nao mudam
- acho q a gente se repele pq se juntar pode dar mto certo
- espero poder conferir isso antes do fim do mundo de novo
(...)
- talvez vc nao seja...mas coloca os assuntos em ordem desfavoravel a vc mesmo
(...)
- mas isso eh analise com dados invalidos
- dados invalidos?
- sim, na época q conversavamos mais eu nao coletava informações como hj
- agora acho q analiso melhor as pessoas
- entao hoje vc quer dizer que tem nuances e impressoes mal colhidas e que portanto nao podem ser analisadas?
- bingo
- entao se hoje vc falasse pessoalmente comigo poderia ser catastrofico
- talvez
- e achar uma pessoa que eu nao era
- mas que na sua mente eu era - e até ainda sou
(...)
- aí é que sao elas...o que vc podia achar massa em mim pode estar aqui ainda, mas vc ja nao achará massa mais
- e isso fará vc pensar que entao nunca foi massa....e entao esquecer de vez
(...)
- vó, boa noite
- boa noite, vô
- vc nao tem ideia de como foi massa falar com vc
- reviver
- recordar
- recontar
(...)
- posso estar perdendo o jeito, ou ateh msm a graça
(...)
- ja esperava algumas palavras suas
- vc jah ouviu coisas demais
(...)
- mas sério q esperava isso td?
- lógico
- claro
- nossa
(...)
- eu nunca consegui chegar a uma amizade com vc
- acho q essa parte eh culpa minha
- e acho que nunca vou conseguir
- pq vc nao quer
- ser meu amigo
- nunca quis
- nao eh bem assim
- e nunca vai querer
- na verdade eh mais denso
- gosto de denso...gosto dessa palavra
- digamos q minha vida as vezes me faz ter saudade do antes
- entendo
- até aí eu entendo
- e vc simboliza bem essa parte
(...)
- e entao eu prefiro que vc nao me reencontre por ai na rua
- nao veja que meu papo continua abstrato pra caramba mas que posso ser chataa demais
(...)
- só pra retomar
- eh pq vc eh um simbolo de coisas boas q eu nao devo lembrar o tempo todo
(...)
- se vc me encontrar, vai atualizar seus dados
- e a lembrança vai ganhar nova camada de tinta pra sempre
- eh
- numa dessas eu te persigo mais uns anos neh
- melhor nao se arriscar a esse ponto
(...)
- fico mais sussa agora
- sabendo que vc sabe como deve ser ideal
- sim, mas nunca se sabe neh
- as vezes eu posso simplesmente nao sumir mais
- amanha posto um pouco disso aqui 
- pq acho que essa conversa é densa e eu adoro coisas densas
- mais que coisas bonitas
- isto ..fico feliz em ter sido util
(...)
- sem mais....saiamos daqui


sábado, 1 de janeiro de 2011

O NOVO, O QUE JÁ CHEGOU

Eu já quis que 2010 começasse logo, quis que terminasse ainda lá no seu início, quis que nunca tivesse existido, e um dia passei a querer que ele ficasse pra sempre. Hoje, eu posso guardar de 2010 todas estas fases no mesmo lugar, porque se alguma delas faltasse, eu não seria agora esta aqui.
Pode ser válido para alguns cortar o ano em pedaços desproporcionais e separar o que veio conforme a nossa vontade e o que se perdeu pelo percurso, mas para mim este clima de esperança coletiva só vale se puder ser acionada a qualquer segundo, porque um segundo pode ser feito de muitas surpresas.
Para que o novo aconteça, ele não pede 365 quadradinhos novos na folhinha, ele só quer um segundo. Para que o novo aconteça, não é preciso faxinar a casa, refazer projetos, ensaiar aspirações, avisar os amigos que você deseja que cada um deles seja feliz a partir daquele novo calendário, etc, afinal, o novo não avisa, como vamos anunciar sua chegada? E isto é o gostoso da vida. 
Da mesma forma, o novo não sobrepõe tudo que existe, é apenas um degrau a mais, à frente, que você enxerga ou não, e onde você pode pisar ou não - e quem disse que o novo não pode ser um degrau para trás, onde você tem que ir pra refazer algum passo que perdeu? O novo não deveria inspirar medo, como também não, a euforia de que todo o resto ficou. Nem tudo fica, nem pode ficar. Senão ficaríamos nós mesmos, com todos os aprendizados, jogados como roupa suja no canto da casa.
Eu quero continuar, e não recomeçar. Eu quero o novo, não o início. Começar, eu comecei há anos. E apesar da troca de sonhos, de planos, de amores, de medos, de amigos, de tantas outras práticas (e teorias), eu não quero parar para descarregar nada - nem de ruim, que sempre se converte em adubo, nem de bom, que se guarda na estante. Eu apenas queria dizer que o novo chegou pra mim em todos os dias de 2010, e assim se segue. Feliz primeiro de janeiro! E um brinde ao que virá - amanhã, hoje ainda, antes mesmo desta canção terminar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Silencio

(9/7/1935 - 4/10/2009)

Duerme en mi jardin
Las blancas azucenas,
los nardos y las rosas
Mi alma, muy triste y pesarosa
A las flores quiere ocultar su amargo dolor
Yo no quiero que las flores sepan
Los tormentos que me da la vida
Si supieran lo que estoy sufriendo
Por mis penas llorarian tambien
Silencio que estan durmiendo
Los nardos y las azucenas
No quiero que sepan mis penas
Porque si me ven llorando moriran

Silencio (Rafael Hernandez)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Até o reencontro

Naquela tarde de sábado, ele tinha melhorado, sim. Mas agora era segunda-feira e os dedos da filha e da neta tiveram que soltar os dele um a um. Apegou-se à vida como víamos nadar nas tardes no rancho. Fôlego! Mas, naquele dia, nada ia bem.
As duas últimas visitas saíram. Cruzaram no corredor com o senhor moreno, de voz doce, camisa azul e bíblia na mão. Não o reconheceram. E ele achou melhor assim, preferia chegar sozinho, como poucas vezes conseguiu estar a sós com quem já sabe que não há mais bordas para se apegar. E que precisa descansar os braços.
Entrou.
- O senhor está me ouvindo?
Pressionou-lhe a mão como resposta. A voz era doce. Conseguia sobrepor-se à indesejável combinação daquelas palavras.
- O senhor sabe que está partindo, não é?
Piscou várias vezes os olhos.
- O senhor vai agora para um lugar melhor. O senhor sabe que é vencedor, não é?
Apertou-lhe a mão. Pediu-lhe paz. Desejou-lhe paz. Adiantou-lhe sobre a paz que vinha. Leu. Falou. Abençoou.
- Até o reencontro.
Piscou-lhe os olhos com força, devagar. Em paz.
O homem da voz doce silenciou para, em seguida, deixa-lo. Na porta, quis parar. Virou-se para o leito, onde o outro o acompanhava com os olhos. Contemplou o último olhar daqueles 83 anos de vida com um sorriso ao homem que parecia sorrir o semblante da serena obediência. Deixou-lhe - não rotineiramente, não naquele dia.
Algumas horas depois, o homem da voz doce preparava-se para entoarm três dos cânticos que aquele senhor gostava. E pediu à família que todos os presentes pudessem saber da forma como a despedida fez-se.
- - -
Setembro começou assim. E deixará um rastro nesta primavera inteira. As flores chegaram antes e coincidentemente, acertaram unânimes: as que ele mais gostava.
A grande e barulhenta família que quando se despede deixa um silêncio ensurdecedor, pela primeira vez experimentou um silêncio inexplicável. Pessoas diferentes ouviram o mesmo silêncio, o mesmo tamanho de um silêncio só.
O passado faria sorrir, assim como a certeza do reencontro, mas o tempo que leva até lá e os tantos elementos que nele vão faltar... - é a reorganização dos dias que dói.
É o estar juntos - do vô que foi pai e mãe, avô e avó - a oração em volta da mesa, o agradecimento por mais um encontro; é o Natal, com o garbanzo; é a carne que precisa ser encomendada - dia desses ele pediu. É a tampa fechada daquela lata cheia de rosquinhas de pinga, servida uma a uma; é o pé daquela fruta, é a planta perto do muro, é o doce de cidra ou de mamão; é a implicância com as crianças; é o hinário e os vinis e CDs; é a carne de carneiro que ele não gostava; é a novela que há 10 anos ele viu "aquela sim era uma novela bonita"; as andanças a pé pela cidade; é o óculos escuros que colocaram nele pra tirar foto; é o "mais quá!!!"; é as conversas em espanhol e as frases que decorávamos na infância; o rosto que ficava vermelho e bravo por brincarmos no barro, as tantas colheres que ficaram enterradas no quintal; a sombra da mangueira; as bronca na "meninica!!! meninica!!!"; é a cadeira fora da mesa agora vazia; é o tudo e o tanto do tempo até o reencontro.

"E o pó volte à terra, como o era,
e o espírito volte a Deus, que o deu." -
Eclesiastes 12: 7



quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A menina que não tinha lágrimas


Chorou por 27 minutos sem pausa para engolir saliva ou piscar os olhos. Passou sem piscá-los. Deixava que as gotas pingassem do olho à blusa. Proibidas de passarem pelo rosto. Molhou a blusa vermelha – detesta vermelho. E o blush do rosto era forte, combinava mesmo com aquele rosto baixo no meio da festa.
Não vai mais chorar por esta vida inteira. Pelo menos, não ouvindo músicas de Bruno & Marrone enquanto os outros derrubam cerveja em sua sandália de salto imenso – que não sustenta o peso da memória.
Não vai criar um conto pra menina que não tinha lágrimas. Não vai contar as voltas dos ponteiros. Não vai contar para ninguém seus motivos – de chorar, de contar ponteiros, de não mais querer contar.
Não vai sequer terminar. Só veio registrar que de tudo que guardou, não há sobras. E que seu coração morreu regado por versos, no dia da morte do próprio poeta.

domingo, 17 de agosto de 2008

Gôndolas



Manhã triste de domingo feliz. Sonhei que você carregava o carrinho, que levava duas bolsas pretas: a que tinha os meus sonhos e a que tinha os seus. Não esbarrava em ninguém, naquela primeira compra que já parecia rotineira.
Foram 13 minutos escolhendo o perfume do sabão em pó e votamos unânime no "Dançando na chuva" porque você disse que era indispensável o nome poético - depois saberíamos que o cheiro nem era bom. “A primeira compra para a casa que ainda não dividimos” – não tem problema, esperar sempre nos pareceu bonito.
Os sabonetes foram fáceis de serem jogados para o carrinho porque a marca era das melhores e o preço era bárbaro! Compramos logo vários. A manteiga também estava em promoção. Ah...e sem contar os leites com sabores ótimos por um precinho irresistível. Leva-se logo uma sacola. Depois saberíamos que elas nunca devem ter o peso dos nossos sonhos – e eu passaria dois dias inteiros com os braços doloridos.
Na fila do caixa recebi um telefonema de mamis dizendo que ligaram pra eu fazer uma entrevista pra uma editora famosa de Sampa. Mas a notícia nunca conseguiu ser maior que a felicidade daquela simulação – nós já moramos juntas e em Sampa. Pode dispensar a entrevista, mãe. E depois de passar pelo caixa, atrasamos a saída para preencher vários cupons – “pra ganhar um caminhão?” – e só agora me lembrei que o sorteio foi ontem!
Ainda em nosso passeio, entre os sabores “quatro queijos” e “brócolis” da prateleira de macarrão instantâneo, contava-lhe as últimas, nem tão novas assim, do que eu chamava “amor da minha vida”, e você gargalhava alto. E eu gostava dos desconhecidos que olhavam quem é que estava apaixonada no mundo. E eu o citava pelo nome! E ficava feliz por ser tudo indiscreto assim.
Um fim de tarde de compras e incontáveis cumprimentos gentis de “me desculpe”, “pode passar”, “não foi nada” de incontáveis pessoas irritantemente educadas. Você não sabia onde ficava o sabonete e eu não encontrava iogurtes e a sopa de feijão. Jogávamos para o carrinho as risadas colhidas de cada produto que pegávamos só para ler preço, calorias, valores nutricionais, e depois devolver no lugar errado.
Muitas prateleiras e poucos pedidos. Porque ainda não conseguiram empacotar paciência e conformidade. Enquanto isso, a gente precisa se contentar com bolacha recheada. "Leva um cereal, pra ter um café da manhã chique".
Na gôndola de desodorantes foram mais 14 minutos, e a gente abria todas as tampas e fazia uma minuciosa seleção entre este e aquele. “Cheiro de banho”, você definiu o vencedor da vez. Ficamos um pouco mais para nos divertir com os da prateleira de baixo, de preços bizarros. Você espirrou sem dó alguma um rastro de Rastro no meu cabelo e ombro direito. Nessa hora eu contava exatamente que o cheiro dele tinha estado comigo. Acordei brigada contigo. E uma saudade de dar raiva.
(*) Qualquer editor inverteria os parágrafos - mas eu preciso terminar pelo meio, pra fingir que ainda pode aparecer outro fim.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

espera

Vontade de rever "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", mas hoje não deveria. Sozinha em casa. Em silêncio há dias. Sentiu vontade de rever o colorido, deixar-se imaginar que é ali onde o vento instalou-se depois de deixa-la, de perder a noção do tempo, das horas aos séculos; queria buscar aquela sensaçãozinha que só dura um miléssimo de segundo ou metade dele, que bate e diz "qual foi mesmo a última alegria? e a última tristeza? to vazio! to leve! to vazio!! passou....". Bateu depois a vontade de rever "Doutor Jivago", que vez ou outra lidera entre os antídotos de sua preferência, e serve para qualquer falta de vento, sem contra-indicação.
Vontade de rever Buena Vista Social Club, que meses atrás dava o som para todos os almoços, diariamente mesmo - uma das únicas preciosidades que dispensou do rito de guardá-la somente para dias especiais, como os nublados, motivos especiais, como conseguir estampar uma velha idéia ou receber dele um texto novo, e companhias especiais, como as raras aptas a chás com abstração e sarcasmo.
Mas hoje era apenas um dia da semana feito para não deliciar-se - assim dizia o pai na infância, que "hoje não é dia de ir à casa dos outros", e que talvez por muitos anos só usou sapato lustrado aos domingos e experimentou certas guloseimas somente no Natal. Passei o dia esperando alguém deixar na caixa de correspondências o aviso de que já é permitido certos prazeres nestes dias de meio de semana, pra que eu partisse sem culpa na procura por algum deles. Abri a tampa umas sete vezes. Vazia.
Perdi o ponto do tricô, que me dava a sensação única de que uma certa vontade que passa da cabeça para os dedos pudessem materializar-se nas linhas, e sairiam poemas ou quem sabem crônicas ou as nossas narrativas - que depois poderiam cobrir almofadas, luvas e gorros. Mas a linha desfez a idéia, devagar e sem volta. Desisti. Dormi. O meio da semana tinha que passar.
Ela telefonou no meio da tarde - de um número que já não combina com ela, embora, pra mim, nenhum combinará mais que o da conta telefônica que a gente quer dividir faz tantos sonhos.
Hoje não há sonhos. Ela deu o primeiro passo num caminho que a gente já estava quase encasquetando que não foi feito ainda. "aquele papo de que pra tudo dá-se um jeito eu tô careca de saber e você sem unhas de tanto crer nisso".
Alguém finalmente viu aquela maluca abanando o lencinho branco na estação, e o trem parou. Agora, meu bem, se bem te conheço, ninguém te tira. E a minha vida ficou bonita hoje porque você ligou, como alegrias que só chegam quando são tiradas do sorriso do canto da boca de quem a gente ama muito. E a voz dela fazia exatamente esse sorriso, expremido pela mistura de querer gritar e não poder. To contando os dias para gritar contigo.
Obrigada por quebrar meu dia ao meio. E ligar para dizer que eu não preciso perder tantos dias até chegar o fim de semana para me sentir a vontade com a felicidade.

sábado, 26 de julho de 2008

aos sábados


Acordou mais cedo pra fazer o que não faria. Aquela disposição que só chega aos sábados, que é dia de sentir a necessidade que só não nos alcança hoje. Acordar muito cedo para saborear os minutos feitos para não se fazer mais nada, além de notar o dia. E de notar os compromissos que foram jogados pra semana seguinte, feito roupa suja passada do balde pro tanque. E quanto mais se passa, mais amolece, mais perde a vontade de se renovar. Na sexta não se escreve bem leve no blog, então esqueço o combinado e penso só no sábado, quando tudo pode estar de molho junto com a semana. 
A campainha de repente, outra visita, mais uma. A criança que grita na vizinha. Foi buscar um leite quente, pra queimar a língua e recomeçar. Já não tinha o gosto do sábado na boca. Quatro crianças e gritos de reencontro, de parentes que se juntam pouco, mas o suficiente para ter sua chegada sempre em festa. Querem chegar de mansinho, mas não conseguem. Pedem pra acordar o resto da casa, e abraçam a tia, o tio, a prima - até o cachorro (sempre lembrado) - com saudade e beijos fortes na bochecha. 
Todo sábado deveria ser de visitas que chegam antes de tirarmos o pijama. De crianças risonhas e arteiras pulando sobre os edredons. De cafés barulhentos. De telefones mudos para compromissos que não sejam canjicas, bolos frescos e chás quentes. Até o vô está melhor. Outro dia me disse "não tem nada bom, não". Mas, não hoje. Hoje é sábado. Saiu do hospital e mais tarde pediu que deixassem a porta aberta - "deixa, eu gosto de ficar ouvindo". O neto arriscava notas no teclado da saleta, e a outra cantava. Erravam. Voltavam. "Como um farol que brilha a noite, como ponte sobre as águas..." Repetiam. Repetiam. Repetiam. Silenciavam. Conversavam baixo, bem baixo. "Como abrigo no deserto, como flecha que acerta o alvo..." Recomeçavam. Esqueciam o silêncio. Repetiam. Repetiam. Repetiam. O avô dormia.
No sábado pode-se repetir aquilo que não foi vivido. Inventar. Permanecer sem pressa. Refazer, substituir, guardar o contrário, do avesso. Resumir a semana pra poder ver que não aconteceu. 
Cantar para a pessoa amada que não chegou ontem. Reler a carta não recebida. Abrir gavetas inúteis. Pastas, cadernos, albuns de fotografias. Deixar uma só música tocar a tarde inteira. Erguer os pés pra moça da faxina passar a vassoura. E não faxinar nada. Aos sábados pode-se tomar café da manhã depois do meio-dia. 
Aos sábados pode-se atender a porta de chinelos e meias, sorrir antes de escovar os dentes, pentear os cabelos com os dedos, tombar a cabeça no travesseiro entre uma vontade e outra. 
Aos sábados, pode-se esperar. Ou abrir a boca bem antes de ter o que dizer. Deixar uma só música tocar a tarde inteira. Repetir.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

ENTÃO VÁ


VOCÊ JÁ FOI À BAHIA? ENTÃO VÁ"

Os jornalistas Clayton Khan e Junior Viana lançam nesta quinta-feira, 01 de novembro, a exposição "Então vá", em Araçatuba.
A dupla percorreu a Bahia para registrar por meio da fotografia suas impressões de pessoas e lugares com os quais se depararam pelo caminho.
A exposição acontecerá no Foto Suzuki, a partir das 20h30, para amigos, parceiros e imprensa. Comidas e bebidas típicas da Bahia também serão apreciadas pelos convidados.
As fotografias ficarão expostas no Sesi de Birigui no período de 05 a 25 de novembro. De 27 de novembro a 09 de dezembro, o trabalho será levado para o Araçatuba Shopping Center e, a partir de janeiro do próximo ano, percorrerá outras cidades do Estado de São Paulo.