quinta-feira, 31 de julho de 2008

espera



Vontade de rever "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", mas hoje não deveria. Sozinha em casa. Em silêncio há dias. Sentiu vontade de rever o colorido, deixar-se imaginar que é ali onde o vento instalou-se depois de deixa-la, de perder a noção do tempo, das horas aos séculos; queria buscar aquela sensaçãozinha que só dura um miléssimo de segundo ou metade dele, que bate e diz "qual foi mesmo a última alegria? e a última tristeza? to vazio! to leve! to vazio!! passou....". Bateu depois a vontade de rever "Doutor Jivago", que vez ou outra lidera entre os antídotos de sua preferência, e serve para qualquer falta de vento, sem contra-indicação.
Vontade de rever Buena Vista Social Club, que meses atrás dava o som para todos os almoços, diariamente mesmo - uma das únicas preciosidades que dispensou do rito de guardá-la somente para dias especiais, como os nublados, motivos especiais, como conseguir estampar uma velha idéia ou receber dele um texto novo, e companhias especiais, como as raras aptas a chás com abstração e sarcasmo.
Mas hoje era apenas um dia da semana feito para não deliciar-se - assim dizia o pai na infância, que "hoje não é dia de ir à casa dos outros", e que talvez por muitos anos só usou sapato lustrado aos domingos e experimentou certas guloseimas somente no Natal. Passei o dia esperando alguém deixar na caixa de correspondências o aviso de que já é permitido certos prazeres nestes dias de meio de semana, pra que eu partisse sem culpa na procura por algum deles. Abri a tampa umas sete vezes. Vazia.
Perdi o ponto do tricô, que me dava a sensação única de que uma certa vontade que passa da cabeça para os dedos pudessem materializar-se nas linhas, e sairiam poemas ou quem sabem crônicas ou as nossas narrativas - que depois poderiam cobrir almofadas, luvas e gorros. Mas a linha desfez a idéia, devagar e sem volta. Desisti. Dormi. O meio da semana tinha que passar.
Ela telefonou no meio da tarde - de um número que já não combina com ela, embora, pra mim, nenhum combinará mais que o da conta telefônica que a gente quer dividir faz tantos sonhos.
Hoje não há sonhos. Ela deu o primeiro passo num caminho que a gente já estava quase encasquetando que não foi feito ainda. "aquele papo de que pra tudo dá-se um jeito eu tô careca de saber e você sem unhas de tanto crer nisso".
Alguém finalmente viu aquela maluca abanando o lencinho branco na estação, e o trem parou. Agora, meu bem, se bem te conheço, ninguém te tira. E a minha vida ficou bonita hoje porque você ligou, como alegrias que só chegam quando são tiradas do sorriso do canto da boca de quem a gente ama muito. E a voz dela fazia exatamente esse sorriso, expremido pela mistura de querer gritar e não poder. To contando os dias para gritar contigo.
Obrigada por quebrar meu dia ao meio. E ligar para dizer que eu não preciso perder tantos dias até chegar o fim de semana para me sentir a vontade com a felicidade.

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