sábado, 26 de julho de 2008

aos sábados

Acordou mais cedo pra fazer o que não faria. Aquela disposição que só chega aos sábados, que é dia de sentir a necessidade que só não nos alcança hoje. Acordar muito cedo para saborear os minutos feitos para não se fazer mais nada, além de notar o dia. E de notar os compromissos que foram jogados pra semana seguinte, feito roupa suja passada do balde pro tanque. E quanto mais se passa, mais amolece, mais perde a vontade de se renovar. Na sexta não se escreve bem leve no blog, então esqueço o combinado e penso só no sábado, quando tudo pode estar de molho junto com a semana.
A campainha de repente, outra visita, mais uma. A criança que grita na vizinha. Foi buscar um leite quente, pra queimar a língua e recomeçar. Já não tinha o gosto do sábado na boca. Quatro crianças e gritos de reencontro, de parentes que se juntam pouco, mas o suficiente para ter sua chegada sempre em festa. Querem chegar de mansinho, mas não conseguem. Pedem pra acordar o resto da casa, e abraçam a tia, o tio, a prima - até o cachorro (sempre lembrado) - com saudade e beijos fortes na bochecha.
Todo sábado deveria ser de visitas que chegam antes de tirarmos o pijama. De crianças risonhas e arteiras pulando sobre os edredons. De cafés barulhentos. De telefones mudos para compromissos que não sejam canjicas, bolos frescos e chás quentes. Até o vô está melhor. Outro dia me disse "não tem nada bom, não". Mas, não hoje. Hoje é sábado. Saiu do hospital e mais tarde pediu que deixassem a porta aberta - "deixa, eu gosto de ficar ouvindo". O neto arriscava notas no teclado da saleta, e a outra cantava. Erravam. Voltavam. "Como um farol que brilha a noite, como ponte sobre as águas..." Repetiam. Repetiam. Repetiam. Silenciavam. Conversavam baixo, bem baixo. "Como abrigo no deserto, como flecha que acerta o alvo..." Recomeçavam. Esqueciam o silêncio. Repetiam. Repetiam. Repetiam. O avô dormia.
No sábado pode-se repetir aquilo que não foi vivido. Inventar. Permanecer sem pressa. Refazer, substituir, guardar o contrário, do avesso. Resumir a semana pra poder ver que não aconteceu.
Cantar para a pessoa amada que não chegou ontem. Reler a carta não recebida. Abrir gavetas inúteis. Pastas, cadernos, albuns de fotografias. Deixar uma só música tocar a tarde inteira. Erguer os pés pra moça da faxina passar a vassoura. E não faxinar nada. Aos sábados pode-se tomar café da manhã depois do meio-dia.
Aos sábados pode-se atender a porta de chinelos e meias, sorrir antes de escovar os dentes, pentear os cabelos com os dedos, tombar a cabeça no travesseiro entre uma vontade e outra.
Aos sábados, pode-se esperar. Ou abrir a boca bem antes de ter o que dizer. Deixar uma só música tocar a tarde inteira. Repetir.

2 comentários:

Talita disse...

Lindo texto, lindo, lindoooooo! Palavras na cabeça de quem sabe usá-las. Mandinha, vc é foda. Bjokas mil e saudadeeee

Anônimo disse...

Oi Amanda, encontrei o seu blog no do Lucas Matheus. Que lindo texto, fantástico, inspirador... sem palavras!!! Estudo jornalismo e também tenho um blog. Dê uma passadinha por lá.
annaneto.zip.net