quinta-feira, 29 de novembro de 2018

paixões perturbadoras


"Mente calma, a salvo de paixões perturbadoras, é a condição do ser humano em seu estado normal. Não pode a busca do saber ser levada à conta de exceção a essa regra. Se o estudo, por qualquer forma, tende a debilitar nossas afeições, nosso gosto pelos prazeres simples, trata-se então de uma atividade ilícita, que não se ajusta ao espírito humano. Se essa norma fosse sempre observada, se todo homem estabelecesse um limite entre seus misteres e sua vida afetiva, a Grécia não teria sido escravizada, César teria poupado sua pátria, a América teria sido colonizada sem maiores conflitos, e os impérios dos astecas e dos incas não teriam sido aniquilados."

* contemporaneidades de Mary Shelley em Frankenstein, de 1818, considerada a primeira obra de ficção científica da história.



terça-feira, 30 de outubro de 2018

Caminho de volta

Começamos a querer e não paramos mais. brincar na rua, virar a esquina, ir a pé para a escola.
Crescemos e continuamos querendo. Sair sem os pais, paquerar, namorar, sentir o vento no rosto. E assim segue uma sequência infinita de buscas.
Terminar os estudos,
Sexo, bebidas, diversão,
Estudar mais,
O diploma,
A independência financeira, social, política,
Mais vento no rosto,
Será que caso ou faço uma casa?
Que tal os dois!
A vida vai ficando pra trás. Pessoas, lugares, sons, falas, sabores. Tudo no retrovisor, cada mais mais turvo ao passar dos anos. 
A memória luta para selecionar recortes de tempos em tempos, mas desaba diante dos excessos. Imagens, empregos, filhos, casamentos, a casa própria, o aluguel pago com o próprio bolso. Que seja. Assim como esse texto não tem destino, nem disposição visual adequadas, seguimos em um sobrepor de sentimentos, desejos, algumas necessidades. 
Passamos a enxergar menos. Pense na vida como um carro na estrada. Velocidade máxima. A adrenalina, o calmaria de estar sozinho só com seu acelerador. Olhe para os lados e o que vê? Um borrão de verde e marrom e tons de preto e azul é o que seus olhos encontram. Você não vê as árvores, o céu, as nuvens, um lago que ...borrou...

Assim acordei. Sentido a vida como um borrão que se apresenta sem traços definidos nem sentidos que possam fazer sentido algum.

Sigo acelerando, tudo ficando para trás. Falamos menos, nos encontramos menos. Decidimos assim, com sono e fome. Nos satisfazemos com acenos digitais. Somos a carência e a indecência auto criadas. Auto alimentadas e mantidas com o pé no acelerador.

O salário, a viagem, um novo carro, a pintura na casa, a renovação da assinatura da internet, do Netflix, mais boletos e..pé embaixo.

Nada parece deter essa engrenagem que rouba nosso discernimento. Ceifa nossa percepção de que estamos indo de encontro ao muro, ou à perda, ou à queda, ou à morte.

Um dia hei de começar o caminho de volta. E hoje, quando acordei, senti que o ponto de retorno parece estar chegando.

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                                                 https://evisual5.wordpress.com/2010/09/21/o-ponto-2/

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Burn out


Primeiro foi um solavanco, um levantar da cama que antecedeu o próprio despertar; foi um corpo sentado, com as pernas esticadas, as costas duras, os braços retesados, o peito pesado, pesado, pesado; um peito com concreto, um coração desprendido, perdido, preso na glote, preso na glote tentando saltar ao céu da boca; o céu totalmente escuro lá fora, o céu totalmente seco na boca; os dentes prendendo os próprios dentes e a inconsciência pastosa muito aos poucos diluindo-se a sair pelos pulmões que saltavam, deixando só então entrar um pouco de realidade.
Depois, de um barulho qualquer na noite, foi um pulo da cama, meu passo pesado cortando a casa, o olhar dilatado, a janela, o silêncio, o silêncio, o silêncio, o batuque no peito subindo a garganta; as horas alerta até a chegada do sol. Mas ainda teria a pior noite. Aqueles corpinhos brancos daquelas crianças mutiladas e o sangue coagulado na brancura reluzente que atravessou o sono, mas despertando os olhos tarde demais. O pesadelo disposto a recusar-se a ir embora, mesmo com a água no rosto, o soluço no choro e as tantas tentativas de dizer à própria angústia que o raiar do dia faria a imagem desaparecer. Eu a vejo até hoje. Às vezes me pergunto se algum dia ela irá embora.
Teve a perda de palavras, que eu tentei explicar para algumas, poucas, pessoas. Com certeza uma das duas dores mais difíceis. As minhas palavras eram as minhas preciosidades, e mudaram para um ponto onde eu não as alcanço mais. Ficaram somente essas. Justo as simples. As que eu nunca escolhi usar. Junto com elas, partiram as memórias – só deixaram a memória de saber que elas se foram e a dor de imaginar meus arquivos de mente e de alma vagando sem órbita sabe-se lá quão incapazes de voltar.
Teve também as coisas sobre as quais as pessoas preferem dar comprimidos a dar importância. A dor na nuca que circula a cabeça para enlaçar a testa com força. Essa dor riu de cada alternativa que chegou - em gotas, comprimidos, intravenosa ou intramuscular. Essa dor está aqui enquanto escrevo, como se tivesse nascido comigo e só agora eu a notasse. Teve a dor nos ombros, insistente e bruta, fazendo companhia para o saco de concreto no peito que chegava antes do canto das primeiras aves lá fora.
Teve a sombra, visível a quem passa o dia tentando fugir. Pequena nos primeiros segundos, incalculável no decorrer das horas, numa crescente sem chance de explicar. Como se uma folha seca caída no chão pudesse ser de repente o abismo que traga e atrasa todos os passos e horas, tornando em peso e pressa o que antes era só um sopro. E o sopro de vida condensado num pesadíssimo desespero pelo que há de vir.
Teve também aquela porção de coisas visíveis que ninguém vê. A comida grudada no prato, as palavras aceleradas, os pensamentos com pressa, a pressa, a pressa, a pressa. A ausência, o atraso, o sumiço. As desculpas. Cada desculpa! Teve a tarde em que o semáforo abriu como num dia qualquer mas o carro não saía do lugar porque o cérebro resolveu não colaborar mais.
Teve a dificuldade imensa do romper do choro. Mas depois finalmente teve choro, e teve muito. Dezenas de vezes. De manhãs, de tardes, de noites. Longas. Curtas. No travesseiro. Na rodovia. No banheiro. Mas teve muito mais sorriso. O sorriso de lábios colados, que é fácil de dar, que evita perguntas, corta um assunto, faz seu papel. Teve sorriso-cansaço, sorriso-incapacidade, sorriso-isolamento, sorriso-desesperança, sorriso-incompetência, sorriso-prostração, sorriso-medo, sorriso-impotência, sorriso trêmulo, sorriso com pressa, sorriso doído de dentes cerrados travando a pressa de fugir.
Não tem texto para o tanto que teve, para o tanto que ninguém percebeu, para o tanto que eu tentei e não consegui prever. E teve o dia em que a velocidade de todas essas muralhas chocou-se ao mesmo tempo no espelho e, o que de tanto resistir, resistir, resistir, na paralisia instintiva de cada força, retesou-se - a fim, enfim, de deixar-me ir; deixar-me deixar, deixar, deixar-me.

4 de outubro de 2018
Relato meu | Fotos de Heitor Fernandes
Edição da imagem: Drico Coelho