sexta-feira, 10 de novembro de 2017

eu não sei fazer conta

eu não sei fazer conta
de quanto tempo não te vejo
de quanto tempo sinto sua falta
de quanto tempo você precisa

eu não sei fazer conta
de quando pisarei na mesma calçada que ti
do tamanho dessa saudade
do espaço que nos separa

eu não sei fazer conta
da paciência que tens comigo
das lágrimas que esconde
do sorriso que me guarda

eu não sei fazer conta
dos textos que não escreveste
dos abraços que recolheste
das andanças que promoveste

eu não sei fazer conta 
da vida que aconteceu
do choro que resolveu
do tanto que emudeceu

eu não sei fazer conta 
mas sei sentir sua ausência
mas sei querer te um tanto
mas sei pensar em ti



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

áridos

"O que é a vida?"


Bastou para mim uma frase. A frase que me enviou no meio do dia, quase meio-dia, no dia em que eu me perguntava quais as chances que eu teria de descobrir a tempo.
Bastou. Você acende.
Como eu não havia pensado nisso? 
Árido como a extensão do calendário em dias em que não te vejo. E eu já perdi as contas de quanto tempo faz, porque eram meses mas agora já devem ser muito mais.
E então você me acessa.
Árido da falta de tintura nas paredes. E das frases que não concluo ao olhá-las deitada de olhos abertos e peito estrangulado de lembrança. 
Estrangulado de vontade de lembrar.
E então você me irrompe. 
Três minutos de pranto a tantas tentativas de chuva.
O pranto estanca a sede de todos os dias em branco.
Você me deflagra.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

terça-feira, 6 de junho de 2017

Carta ao sócio

Preciso dizer?
Preciso dizer?
Preciso dizer?
Preciso.
Perdi o jeito, esqueci o trilho.
Ainda sei que preciso falar com você.
Já não sei o quê.
Mas sei da escadaria, do vento e da sua rasteira.
Diga de novo que vai.
E vá.
E iremos.
E não esqueça de dizer que uso tiaras e canetas coloridas.
Nunca foi verdade, mas diga mesmo assim.
Preciso falar com você, ainda sei.
Sei disso.
Só disso.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

sempre é bom voltar aqui

Perdão pelo silêncio.
Sumi em meio às idas da vida, mas nunca deixei de estar aqui.

Retornar e encontrar um texto tão singelo, como de costume quando você resolve dedilhar é sempre reconfortante. Sinal de que de alguma maneira nos mantemos ligados, textualmente ou além disso. Ler que depois de tanto rasgar o calendário sente se mais leve me alivia de certa forma. O teu incômodo é meu também e, por consequência, sua leveza é minha paz. 

A vida nos ensina da maneira que ela sabe e pode. Nem mais nem menos tempo. O tempo que o tempo pede. As lições, não exigem aprendizado pleno. Nem mais, nem menos aprendido. O tanto, que deu pra ser. Revisitar não é pecado, nunca foi. Amar, apaixonar, saudar, chorar e sorrir. Todas essas palavras, estão no mesmo capítulo, na mesma régua, no mesmo quadro, foram escritos antes que o giz terminasse. E antes que se apagassem esperando a próxima tarefa, seja do corpo, seja da mente, seja da alma. Se perdeu alguma delas, copie a próxima.

Siga em frente, minha querida. Mesmo nos dias em que considerou merecer menos, eu fiquei aqui, com a teimosa convicção de que mereces tanto ou mais. Sei lá, o tanto que deu pra ser, o suficiente para abrir um sorriso quando quiser.

domingo, 19 de junho de 2016

florindo


Depois de bastante tempo sofrendo, a gente perde a mão com as coisas simples da felicidade. Em seis anos, provavelmente é a primeira vez que eu me sinto bem de verdade. De verdade...sem ser aquelas respostas que a gente dá quando não quer esticar o assunto. De verdade...sem ser espremendo aquele pedaço de medo que queria reinar a todo instante. De verdade, sem o desânimo que durante tanto tempo me tirava vontades como passar perfume, abrir a janela, tirar os óculos escuros.
Primeiro desconfiei que não pudesse ser pra mim todas aquelas alegrias. Eu não mereço, sei...mas pensava que merecia ainda menos. Muito menos. 
Depois fiquei olhando para ela, retomando aos poucos a lembrança de como é viver feliz. O estranhamento durou muito tempo - talvez a metade do tempo. 
Porque nessa hora a gente acaba dando vez à ideia de que talvez seja só mais uma cilada.
O problema de deixar de sofrer é que às vezes a gente nem percebe que a dor foi embora. A gente fica ali com o cheiro da dor, a sombra da dor, o espaço vazio da dor. 
Então depois de um bom tempo eu entendi que era seguro faxinar. Fui remexer nas coisas, cobertas e espinhos. Manipular pela última vez as feridas que manipularam meus dias por tantos e tantos espaços do calendário.
Nessa hora parece que a dor ainda está. Parece que ela ainda vai reinar. Mas só parece.
Fui adiante com a faxina. Encarei com vontade as marcas dos arranhões. Refiz caminhos. Falei. Confessei. Assumi.
O medo do medo foi perdendo força. O medo de novos tombos foi ficando pequeno.
Então foi quando eu visualizei pela primeira vez um espaço amplo. Havia espaço em branco, havia um caminho sem qualquer pegada. 
Algum tempo foi gasto ali apenas olhando. O medo não estava. O desânimo não estava. Ninguém me observava mais.
Contemplação. Gratidão. Gratidão.
Com ela veio o perdão. O perdão a mim, ao meu jeito de sofrer, à minha escolha em adoecer.
Perdoada, certamente foi quando pisei na próxima importante etapa.
Além do caminho, agora existiam flores.
O que eram flores mesmo? Para que serviam?
Outra pausa para contemplar.
De repente as flores já eram muitas. E havia sol. E chegavam pássaros. E uma cachoeira abastecia uma corrente de águas que não parava de correr.
Deu vontade de entrar. Vontade de mergulhar.
E percebi que o sol brilhava já havia um bom tempo. Mas só agora eu sentia a necessidade de me banhar nele. De passar um tempo sob o calor.
Perdoada. Aquecida. Florindo.
Abri meu email, comecei a te escrever.
Depois achei melhor jogar-me aqui, para você ler quando vier me procurar.
Sócio...não sou de prometer muita coisa, mas hoje eu vim te dizer que eu prometo nunca mais sofrer.


terça-feira, 24 de maio de 2016

Romanos 7

"A alma dá ordens ao corpo, e este obedece imediatamente; a alma dá ordens a si mesma, e resiste. Ordena a alma à mão que se mova, e é tal sua presteza, que mal se pode distinguir a ordem da execução; não obstante, a alma é espírito e a mão é corpo. A alma dá a si mesma a ordem de querer, uma não se distingue da outra, e contudo, ela não obedece. De onde este prodígio? E qual sua causa? Manda a alma que queira - e não mandaria se não quisesse - e, não obstante, não faz o que manda. Logo, não quer totalmente, e por isso não manda de modo total. A alma manda na proporção do querer, e enquanto não quiser, suas ordens não são executadas, porque é a vontade que dá a ordem de ser a uma vontade que nada mais é que ela própria. Logo, não manda plenamente, e esta é a razão por que não faz o que manda. Porque, se estivesse em sua plenitude, não mandaria que fosse, porque já seria. Não há, portanto, prodígio algum em querer em parte e em parte não querer; é uma enfermidade da alma. Esta, sustentada pela verdade, não se ergue de todo, pois está oprimida pelo peso do hábito. Há, portanto, duas vontades, ambas incompletas, e o que uma possui falta à outra". (Confissões de Agostinho, Livro Oitavo - capítulo 9).


segunda-feira, 16 de maio de 2016

trovão

Então era isso ou era só isso? Vírgula ou ponto final? Exclamo ou interrogo?
Era isso ou era só isso?
É quem chega ou volta para fechar a casa? É a segunda camada de tinta? É quem antecede o beijo ou sucede essa dor
Exclamo? Interrogo? Silencio?
Volto a ouvir aquela canção? Devo desocupar o banco ao lado do meu? Acelero ou me desligo?
E se eu te contasse que esqueci...você perdoaria?
Qual das duas cartas devo entregar? O que jorraria se eu tentasse me abrir?
Mágoa...?
Era isso ou era só isso?
Onde estão nossas conversas pelas tantas madrugadas?
E se eu te contasse que há muito as apaguei...você relevaria?
Onde foram deixadas as horas de caminhadas e risos bobos?
Você se lembra da lista de filmes?
E se eu contasse que à maioria assisti...você reescreveria?
Era isso ou era só isso?
Onde foram deixadas promessas bobas de permanecer? E aquela história de surpreender? Qual a tua ideia?
Distraída? Destruída?
Era isso ou era só isso?

(03/05/2016)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

bilhetinho



Há dias em que a saudade me escolhe.
Em outros, eu mesma a escolho.
Essas bobeiras não passam de avisos.
E avisos nunca faltarão.
Saudade, ué!

quarta-feira, 20 de abril de 2016

a certeza não existe

então em uma manhã qualquer  viu todo o silêncio romper-se.
olhos estatelados, a boca ainda amarga, a luz no celular indicou uma msg de longe
("isso não pode ser verdade! Como vou atender este pedido?")

abriu as janelas, da casa toda, tentou fazer com que a luz do dia apagasse aquele torpedo
sentou no vaso, de celular nas mãos, os olhos ainda mais abertos, agora pensativos
trocou-se em quinze minutos, dez mais estava na estrada. despediu-se com outra msg
("melhor assim, evito perguntas")

em pouco tempo, menos do que de costume, pode atender o tal pedido
não se arrependeu
não sabe o que é isso

sábado, 5 de março de 2016

Ódio



Um colega meu acaba de me mostrar a ameaça recebida por alguém que discorda de sua opinião política. Ontem eu soube de uma mulher que foi coagida e humilhada pelas colegas de trabalho por causa da opção política de seu marido.
Pessoas que não tem condições técnicas para opinar têm apenas a violência como instrumento, seja ela verbal ou física. Por exemplo, você discorda de uma ideia mas, por falta de informações combativas, ataca a PESSOA que crê nessa ideia.
É assim que nascem piadas, montagens e paródias que destacam o lado PESSOAL de quem carrega as ideias das quais você discorda.
É assim que criamos preconceitos e ataques à etnia, religião, ideologia etc.
E é assim que começamos a matar a tolerância, o respeito e o direito do outro de dizer, de pensar, de ser.
Não existe DEBATE nas redes sociais, existem ofensas. E se o caos dessa semana continuar nesse ritmo, em menos de um mês teremos eclodido uma guerra.
Eu posso sequer suportar ouvir o que você pensa, mas isso nunca me dará o direito de te impedir de continuar.
Eu quero ser quem eu quero ser sem ter que morrer disso.