sexta-feira, 25 de maio de 2018

extratos



Os cotovelos imóveis fincados na mesa, vermelhos. Duas mãos bem fechadas a sustentarem o maxilar. Nem quase respiro. A brancura e o silêncio em nada lembram os soluços das primeiras horas em que as mãos estiveram nos olhos vermelhas, sôfregas, encharcadas de duvidar, trêmulas de dúvidas, brancas de desesperar.
O silêncio costura meticulosamente cada pedaço como um cão que, mesmo depois de tantos dias, não cessa de cheirar do dono a roupa já sem passado. Mas eu, não, não mais espero. Abraço a ideia absurda de um inevitável dia em que a memória lampeja somente o que não guardou e, em seu colo, como um extrato desbotado despencando da carteira,  você, inevitavelmente e sozinho, testemunhe meu rosto cair. Sorrio.


quarta-feira, 23 de maio de 2018

constantes


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a dúvida e o medo são constantes todo dia. 
o sono, a fome, a sede, 
todos passam. 
a dúvida e o medo são constantes todo dia. 
as pessoas, o trabalho, a maldade,
 todos passam
a dúvida e o medo são constantes todo dia. 
o amor, a certeza, a saudade,
 todos acabam
a dúvida e o medo são constantes todo dia. 
a saúde, a vida, as paixões,
 todas somem
a dúvida e o medo são constantes todo dia. 
a morte, os boletos, os chuvas,
 todos chegam
a dúvida e o medo são constantes todo dia. 
as árvores, os frutos, as lágrimas,
todos secam
a dúvida e o medo são constantes todo dia. 
o abraço, o beijo, o sorriso, 
todos findam
a dúvida e o medo são constantes todo dia. 
o sol, a lua, os filhos,
todos nascem
a dúvida e o medo são constantes todo dia. 

seja mais constante do que a dúvida e o medo
todo dia.




equação

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                                 brasil.elpais.com 

que dança gostaria de dançar....palavras com ou sem vento?

a internet é fria demais pra tanta saudade...e meu calendário é tão apertado pra 365 dias por ano...uma tragédia essa equação que acelera o tempo e congela nossos corações. que intensifica a distância e mantem o carinho de forma uniforme. é como se morássemos em planetas diferentes e o aceso pudesse ser feito apenas por ônibus espacial. faltam estradas, sobram ponteiros de um relógio que escolheu um ritmo diverso para cada um. E assim seguimos procurando o que ninguém sabe nem define. Assim permanecemos no aguardo, sentinelas de uma paixão, guardiões de uma indecisão e de uma necessidade de compartilhar saberes e divagações. Querida bailarina, vc pouco baila. Eu, pouco escrevo.

Qual ciência nos une e nos separa? Qual conceito nos desperta e nos isola? Qual dimensão habitamos cada vez que criamos a ilusão de um novo encontro?

Ondem estão nossas respostas?

Talvez veladas em cada pergunta.