quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sobre a minha cabeça



Há quase 40 horas aguardo um e-mail com alguns materiais que eu preciso muito, o que me leva a atualizar a página freneticamente e deixar o note ligado desde terça-feira. Mas chegou o seu e-mail, e me arremessou para um lugar que eu só encontro aqui, dentro da minha cabeça, e que há muito eu não me lembrava de visitar.
Seu e-mail escancarou o quanto é fato que eu não preciso de mais nada. Sou exagerada, reclamona, crítica, crítica, crítica, e são todos caprichos, nada além. O lugar onde temos a memória do vento no rosto na escadaria, a vontade de protelar o fim do passeio prometendo que no próximo metrô a gente embarca, a chuva lá fora, que chegou pra disfarçar os olhos embaçados, a apostila que a gente odiou, mas você insistiu que voltássemos para eu buscá-la na mochila que ia nas suas costas, as tantas lembranças.
O curto passeio a pé em Penápolis, depois da padaria, as horas esticadas em frente ao hotel, eu esperando você telefonar de manhã para se despedir de novo, você indo embora evitando a vontade de telefonar. As tantas ligações de madrugada, até 3h, 4h da manhã. Isso nunca foi mesmo amizade, isso não tem nome.
Das tonalidades e suas variações a respeito dos departamentos diversos que você citou, eu não posso dizer. Eu ainda não vivi nada disso, e sempre que, se mesmo impotente eu lançar meus pitacos moralistas ou mimados, sei que sempre vou logo me arrepender, e me achar babaca. Posso mesmo, e sempre vou, andar preocupada com você, ainda que eu não te diga. Mas sobre a minha cabeça e você, eu posso dizer. 
Não me recordo do gol contra que você citou, mas me lembro de vários dias em que eu quis dançar contigo palavras rápidas e atrevidas, pelo puro prazer estético que elas sabem dar (é como o efeito de um vestido rodado; ao toque de uma salsa, ele precisa e deve aproveitar). Ousamos várias vezes por isso, e por nada além.
Um dia essa cabeça propôs que nos lembrássemos de todos os amores que um dia me tiveram na mão (ops...que eu colocava na mão e esmagava, né?). Você sempre os conceituava rapidamente para logo apelidar cada um deles, conforme a característica que representava maior discrepância com o que você sabe que eu sou. E zombamos de mim por minutos deliciosamente ousados. Você não é homem nem mulher pra mim, você é um pedaço dessa minha cabeça.
S
eu e-mail hoje trouxe tantas coisas bonitas que eu não saberia respondê-lo. Não sei por qual sensação, mas chorei um pouco em parte dele. Sempre vai ser um presente saber que você garante a manutenção daquilo que acha precioso - e que eu sou parte disto. Suas palavras foram daquelas que trocávamos há alguns anos, e que podem ter por algum dia nos levado a alguma confusão – a diferença é que agora não há confusão. 
Ah...sobre o seu gol contra, eu nunca mais me lembrei dele – naturalmente, mastigo muito devagar, mas depois dessa etapa, a digestão é definitiva, e eu me esqueço dos sabores. Tem sido assim também com os amores, lembra? A saudade precisa ser saudade até seu último dia, e no dia seguinte ser pedaço de jornal velho. O mesmo com os embaraços que posso ter sentido. Pedaço e jornal velho, que se um dia quisesse contar história, ninguém pararia para crer. 
Obrigada pelo e-mail sobre a sua cabeça. E não se esqueça que eu sempre vou pensar que isto não é mesmo amizade. É palavra não inventada, porque até hoje aqueles que chegaram perto de vivenciar, devem ter se assustado e partido sem provar. Aproveitemos nós disto que ainda não se criou!
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(Por isso gosto tanto da amizade em "A menina que roubava livros")
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