segunda-feira, 23 de julho de 2007

Sobre o mesmo fim de tarde

Caminharam durante algumas horas, mas, como ela é chamada por ele de exagerada, caminharam centenas de quilômetros num único dia. Ao menos era assim que os pés se sentiam, já que, além do corpo mole (porque ela é um tanto preguiçosa para as atividades físicas também), levavam o peso da bolsa, das blusas de frio, da apostila. Apostila? Ela lembrara somente meses depois que havia sim uma apostila cheia de páginas quase em branco.
Precisou interromper a caminhada antes dos já previstos últimos passos. Precisou porque, além de cheia de ritos, é possessiva. E, independente de pensar se era ou não a hora certa – diga-se “bonita” - de se despedirem, queria mais tempo com ele.
Disse que estava com fome - mas talvez tenha inventado, não sabe mais. Uma cantina estreita com pessoas interessadas em refeições rápidas no balcão, ainda que num sábado. E ela tentando não contagiar a refeição com aquele ritmo onde o que importava mesmo era apenas matar a fome. Precisava matar a mania chata e birrenta de querer uma coisa e não abrir mão. Precisava convencer a si mesma, em poucos minutos, de que o dia seguinte traria o próximo encontro. Apenas o dia seguinte. Na verdade, sofreu por antecipação, porque teriam outro encontro no mesmo dia. Conversariam por horas. Ele, de chinelos. Ela, antes de cochilar sob os raios de luz de tantos postes e fachadas de bares e restaurantes, que uma terceira pessoa da história os levou para conhecer.
Mas como é ansiosa, no fim da tarde já estava mesmo no fim do roteiro, em plena cantina. Sossega e come! Aliás, “come com as mãos mesmo”, ele disse. Parece até que estava com pressa. Estava? E quem disse que esperar por pratos e talheres não seria uma outra, ainda que quase insignificante, estratégia de atraso. De prolongamento da conversa. Mas a estranheza era mesmo quanto a falta dos talheres. Esfirra a gente come com as mãos. Eu sei, chatíssimo! Mas esfirra aberta??? E depois ela é que é uma garota muda que usa tiaras e canetinhas coloridas! Por procurar talheres! Comeu mesmo com as mãos. Não sabe se matou a fome porque ficou pensando em argumentos que fizesse querer ficar ali ao menos por uma eternidade. Mas não quis. Ele precisa ir. Ela precisava ir. Não sabia que ficariam ali quando quisessem. E que poderiam voltar, por exemplo, numa sexta-feira a tarde, marcando o encontro para o minuto seguinte. Conversaram. Foram embora. Nos poucos passos entre a cantina e a possibilidade de descansar, já não sentia o peso da bolsa e do cansaço. Já não se preocupava com despedidas. Porque o convenceu a leva-la até a porta. E ele foi sem reclamar nem um pouco.

Nenhum comentário: