sexta-feira, 14 de março de 2008

pelo avesso da saudade

A noite fui ao cine ver uma porcaria que dispensa lembranças, mas a companhia era a amiga-psicóloga que não encontrei igual nos últimos 10 anos mesmo estando por perto por tão raras vezes. Depois do filme ficamos no café ouvindo o mesmo som dos meus 16 anos, quando eu a segurava para não entrar em casa fazendo muito barulho ou gritando com meu cachorro. Ela conhecia várias bebidas, mesmo sendo quase 3 anos mais nova, e eu ficava preocupadíssima à menor alteração na sua risada, pensando na cara de mamis se visse a gente chegar.
O repertório saiu daqueles tempos, sem pausas. Logo estávamos a tantos anos daqui! E a cabeça que não carregava as coisas de agora voltou a pesar (ou aliviar) os pensamentos vindos com a música. Sempre fui uma pamonha. Ela era "o coraçãozinho de pedra", como apelidei por fazer chorar o menino que consquistava a família dela e a minha, mas nem a maioria de votos a convencia de que os novos ares de outra cidade não lhe arrancariam os velhos hábitos de Pequenápolis.
E eu que sempre quis ir embora entender as pessoas, pedia que ela me entendesse pouco antes de entender que isso era natural dela. Até mística eu diria da baixinha dos olhos grandes e sorriso debochado.
Eu tinha as roupas tão discretas que não sei como ela também usava. E os comportamentos eu abominaria do mundo todo, menos dela, que era assim apenas por fora, eu defendia. Prática, talvez desprendida demais pra ser amiga da dona de um baú tão pesado. Mas sempre seria somente ela quem dormiria dentro do carro quando eu não aceitava voltar pra casa antes de brigar com o menino que ela entendeu mais que eu. Era essa que me esperava por horas se precisasse. Que dormia num colchão no chão do quarto depois de ouvir por duas, três, até seis horas talvez, as conclusões do sábado à noite e as ingênuas interpretações de tudo e todos que até hoje marcam a menina intrigada. Era ela quem dava o que eu jamais diria que ela tinha para oferecer a si mesma. Prática, talvez desprendida demais.
Mas era ela quem telefonava pra ele e mentia tanto quanto eu precisasse, enquanto já discordava e dava uma bronca a cada pausa entre passar o gloss e uma gargalhada. Mas eu sabia que seria ela que sempre diria que sim. Eu, apenas mentora dos meus próprios atos. Ela, a cara de pau que nunca tive. Os micos a que ela jamais se submeteria na vida foram cometidos ao meu lado. E todos por mim (que fique claro porque se escondo ela grita enquanto ri). Mas as músicas que tocavam na cabeça dela eram as mesmas que gravei no rádio pra lhe contar que lindas "presta atenção nessa letra!!!".
E ela foi ser a psicóloga que eu só planejei. E um dia ainda lhe digo que me sinto refletida inteira nela por isso. E que porque a conheci é que acho LEALDADE a palavra mais bonita de todo o dicionário. Era com ela que dividia o grito depois de virar a esquina. E deixávamos as sandálias no mesmo canto da festa, mesmo que eu ficasse sentada ao lado bebendo Coca-Cola e ela demorasse meia hora pra voltar do bar. Porque se na madrugada em casa faltassem horas, no outro dia "
te ligo assim que chegar em casa". E nossas mães trocavam muitos modos de cortar o telefone, mas com a mesma dó com que se pensa em colocar pimenta em chupeta de criança. Nos últimos anos, o telefone uma da outra perdemos frequentemente, e decorar é sempre complicado. Eu, porque o número dela sempre muda. Ela, porque não anota. Ela usa mais o tempo. E eu nunca me importei de seguir guardando a data e o local dos passos. Porque na velhice terá sido ela quem segurava a bolsa pra eu dançar, roubava rosa, emprestava a letra e subia no portão. E poderíamos voltar sozinhas a pé para casa, se ela estava esperando na outra ponta do salão quando a canção acabasse. E com o exato sorriso que eu daria se pudesse naquela hora.E quatro anos ela demorou pra voltar pra essa cidade. E ontem avisou que não vai ficar. Mas, naquele café, por uma hora a fita voltou pro ponto exato de onde eu já tinha me cansado de sentir saudades. O avesso da saudade ontem.
E tudo que há de mais clichê se junta na vez de resumir. Porque é a única que sabe o que ainda vou pensar em fazer. E que até outro dia duvidou de um amor pouco antes d'eu dar-lhe um nome diferente. É quem pode escrever minha biografia. A única história verídica. Por isso muita saudade de ontem.
Ela mudou um pouco. E eu talvez o mesmo tanto. Mas é sempre ela quem vai soltar na roda que o grande amor da minha vida teve o eterno apoio dela, e que
quem deixou ir embora fui eu "porque o menino, se chamar ele aqui agora, não sei não...". E eu sempre fico com a sensação de que então é isso mesmo. Que enquanto ela estiver por perto eu posso consertar meus erros. Assim continuo errando mais segura. Contei entre risadas as peripécias dos últimos tempos. E ela quase censurou - porque talvez também precise que eu não mude muito. Além do mais, não temos muito tempo - ela sempre aparece de surpresa e não sabe quando sai. E eu quis ficar quieta ontem, por causa da dor na garganta. Sinto tanto a falta dela que preciso de silêncio pro tempo render mais. E a música fazia voltar 10 anos! Eu precisava manter tudo intacto enquanto fosse assim, mesmo que ela nem percebesse. A gente não conversou. Mas, se não foi um cisco, teve uma hora que vi seus olhos se encherem de água.

domingo, 2 de março de 2008

Graziela Nunes - http://aroeiramanenguera.blogspot.com/
Do dia em que ela acordou "com uma vontade incrível de ser sua amiga quando criança"
Ela me escreveu e pediu que eu respondesse...e quando fui ler quase precisei interromper para correr para cá..me esconder. Na verdade, interrompi. Já imaginou uma amizade nascida em salas de aula e conversas de bancos de pátio morar debaixo do seu travesseiro e aparecer nos brindes dos pacotes de sucrilhos como se você não pudesse mais saber que idade tem? E como se eu não pudesse mais saber quem foram meus amigos de infância depois das primeiras linhas, fiquei sufocada. Parei. Olhei à minha volta, buscando os cacarecos e bibelôs a quem não dei uma espécie de santuário que ela deu e que uma vez vi, obrigando a voltar comigo uma sensação de culpa e intriga pelas duas partes da viagem, sem pausa na baldeação. Encontrei uma bailarina, mas que não é da coleção, e sim presente de amigos no ano passado, talvez pra me avisar de que não devo me esquecer das outras empoeiradas nas caixas. E quis que ela tivesse ido me ver dançar.
Voltei à leitura, e quis ainda mais pelo caminho, imaginando como ela se divertiria se eu a colocasse pra ser justo a Chapeuzinho no teatro onde eu mandava nas crianças da rua com uma convicção que hoje chego à quase-vergonha quando encontro algumas delas nas ruas. Tantas, pelos cabelos tingidos e semblante maduro, quando não as que carregam outras crianças com tênis do homem-aranha ou camisetas com escritos que ninguém entendeu, me irritam ao me lembrar que terei que escolher outra para o papel. E eu paro sem perceber e tenho logo quatro ou cinco roteiros que sei que terei que adaptar a cada segundo aos seus xiliques e palpites e o quanto isso vai quebrar minha concentração. A menina sistemática teria problema cardíaco cedo, por levar a sério os detalhes da produção que ela confundiria já no "cheguei, pessoal".
Mas eu queria mesmo era que ela tivesse ido me ver dançar. E quando estreei com a sapatilha de fazer bolhas, tem gesso na ponta, por isso eu não caio! E quando parada no palco por longos segundos porque a parte da música é assim mesmo, calma! ela faria barulhos com o saco de pipocas pra me lembrar que íamos pra casa dela depois e eu assopraria o castelo de cartas de cara e arrancaria com pressa todos os grampos do cabelo pra gente dar espaço pra qualquer idéia que quisesse balança-lo.
Queria ter feito-lhe um texto, mas pro teatro, pra ela mexer todos os sentidos de uma só vez e no dia da apresentação os pais não entenderem nada da gente, porque adulto pra entender criança pensa logo que precisa reduzir alguma coisa, e reduz e bóia tanto e por isso mesmo não gosta, achariam esquisito, talvez dessem um vídeo game pro filho e a gente ia rir tanto de deitar as costas na calçada.
E depois que terminei de ler, parei na foto que ela escolheu pra representar duas dela, ou duas de mim, ou duas de quem? Se somos tão diferentes! E eu que ao conhecê-la de cara quis levar pra casa um pedaço de sagacidade ou ousadia to ouvindo agora que ela já tinha algo de mim bem antes de eu saber que onde moro não é a única cidade do mundo e que pode-se demorar algumas horas para chegar ali onde a gente combinou.
E depois de conhecê-la tanto, eu desconheço a partir de hoje. Porque agora temos exatamente tudo pela frente. Teremos a infância juntas, e na infância não se conhece a saudade.

(à Graziela Nunes, que ainda é apenas a Grá, mas que será jornalista, das melhores, aposte nela)http://aroeiramanenguera.blogspot.com/