sábado, 13 de março de 2010

Sob os demais

- o que digo?
- que morreu!
- mas quando a virem?
- será outra.
- outra?
- o amor...o amor sendo outro, ela é outra.
- como outra?
- não terá a mesma feição, não vão reconhecê-la! anda, escreve.


Correu para o canto da memória rever o antigo amor. O amor do qual não pôde guardar nada, exceto a vontade de tê-lo vivido, a saudade, a lembrança do cheiro, o olhar. Como guarda! Sabia que não podia materializar aquela memória, mas podia brindar a ela quando bem entendesse. Mais ainda, sozinha!
A sensação era de vinho gelado. E janelas abertas. Vinho que não beberam - como ela prometera um dia chegar com o vinho ...o tempo passou antes. A janela que nunca abriram. Reviver um amor que não viveu era das conquistas mais completas!
Era assim toda vez que alguém fechava a porta para não voltar - corria abrir o que não fazia parte da recente história findada. Porque agora não seria mais traição. Enquanto achávamos que ela vivia o fim de um romance, ela se deliciava com canções que dele nunca fizeram parte. Que faziam parte dela. E que agora podia ouvir sem os fones.
Amava-o (falo deste amor antigo)? Não...amar sempre amava ainda por uns dias o último, mas reviver, só revivera aquele - de tantos sonhos atrás. De poucas madrugadas de violão e lua alta.
Era capaz de sonhar, viver, entregar-se, sem perder a lembrança exata de quem já seguia tão longe. Era capaz de erguer-lhe o lenço branco, pagar a passagem, jurar que desejava vê-lo morto. E não queria sua presença. Garanto! Queria mesmo era amá-lo assim. Por isso sempre voltava para tirar a poeira da velha lembrança. Juntos para sempre. Frase que ele não disse. Juntos novamente, cada vez que alguém ia embora.
Depois de tantas despedidas, vinham sempre essas chegadas. Por isso ela recomeçava quando batia o final. E por que sempre ele? Por que merecia? Porque com ele não vivera, a que teria que devolver-lhe? Deste nunca estava vazia. Este, amaria. Mesmo sob os demais.

("o paraíso, ele paira no ar" - estou mesmo é falando de você)

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