quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sinto "((0o0))"





sinto saudades, das companhias certas nos horários impróprios. das refeições saborosas em locais até então desconhecidos. dos diálogos que se transformavam em reuniões sobre o nada. do tempo que o relógio parecia não existir. da bola que pulava e encantava tantos e por tanto tempo. Do abraço que chegava sem que esperasse. da chuva, chuva, chuva...de olhos na janela no frio e embaixo dela, no verão de calças curtas

sinto alívio, imaginando que esteja correndo, falando e mostrando sua importância e se sentindo importante. não espere nada no final do corredor, mas viva, enquanto isso, com intensidade. sinto alívio quando o vento bate no rosto e parece trazer algo de longe, um cheiro, um suspiro, um sorriso, um ato que anima, que impulsiona. sinto alívio assim que cai a noite, assim como raia o dia, porque nos atos sublimes encontro a paz que preciso para abandonar erros e desacertos (são diferentes)

sinto satisfação. agarro a chance de uma nova proposta, de um novo verbo, de responsabilidades que seja, me satisfaço quando trocamos as letras, as palavras que enchem a tela, ou a mente, transformando impossibilidades em certezas efêmeras. sinto satisfação porque aqui, nesta janela, a possibilidade é infinita

sinto algo inexplicável quando os braços alcançam e os olhos percebem a pureza do toque, o gesto imaculado, o sorriso espontâneo, o olho no olho, o aroma nunca encontrado. inexplicável porque aprendemos, sem saber que estamos aprendendo e depois percebemos que tudo mudou. perceba como a distância desaparece, quando falamos com alguém que realmente compartilha dos mesmos sabores, dos mesmos desejos, das mesmas inquietudes. só me deixe compartilhar, mesmo que seja a distância (sem crase)

a distância era confidencial, por isso aqui não cabe os mesmos argumentos, apenas o registro.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A menina que não tinha lágrimas



Chorou por 27 minutos sem pausa para engolir saliva ou piscar os olhos. Passou sem piscá-los. Deixava que as gotas pingassem do olho à blusa. Proibidas de passarem pelo rosto. Molhou a blusa vermelha – detesta vermelho. E o blush do rosto era forte, combinava mesmo com aquele rosto baixo no meio da festa.
Não vai mais chorar por esta vida inteira. Pelo menos, não ouvindo músicas de Bruno & Marrone enquanto os outros derrubam cerveja em sua sandália de salto imenso – que não sustenta o peso da memória.
Não vai criar um conto pra menina que não tinha lágrimas. Não vai contar as voltas dos ponteiros. Não vai contar para ninguém seus motivos – de chorar, de contar ponteiros, de não mais querer contar.
Não vai sequer terminar. Só veio registrar que de tudo que guardou, não há sobras. E que seu coração morreu regado por versos, no dia da morte do próprio poeta.

domingo, 17 de agosto de 2008

Gôndolas



Manhã triste de domingo feliz. Sonhei que você carregava o carrinho, que levava duas bolsas pretas: a que tinha os meus sonhos e a que tinha os seus. Não esbarrava em ninguém, naquela primeira compra que já parecia rotineira.
Foram 13 minutos escolhendo o perfume do sabão em pó e votamos unânime no "Dançando na chuva" porque você disse que era indispensável o nome poético - depois saberíamos que o cheiro nem era bom. “A primeira compra para a casa que ainda não dividimos” – não tem problema, esperar sempre nos pareceu bonito.
Os sabonetes foram fáceis de serem jogados para o carrinho porque a marca era das melhores e o preço era bárbaro! Compramos logo vários. A manteiga também estava em promoção. Ah...e sem contar os leites com sabores ótimos por um precinho irresistível. Leva-se logo uma sacola. Depois saberíamos que elas nunca devem ter o peso dos nossos sonhos – e eu passaria dois dias inteiros com os braços doloridos.
Na fila do caixa recebi um telefonema de mamis dizendo que ligaram pra eu fazer uma entrevista pra uma editora famosa de Sampa. Mas a notícia nunca conseguiu ser maior que a felicidade daquela simulação – nós já moramos juntas e em Sampa. Pode dispensar a entrevista, mãe. E depois de passar pelo caixa, atrasamos a saída para preencher vários cupons – “pra ganhar um caminhão?” – e só agora me lembrei que o sorteio foi ontem!
Ainda em nosso passeio, entre os sabores “quatro queijos” e “brócolis” da prateleira de macarrão instantâneo, contava-lhe as últimas, nem tão novas assim, do que eu chamava “amor da minha vida”, e você gargalhava alto. E eu gostava dos desconhecidos que olhavam quem é que estava apaixonada no mundo. E eu o citava pelo nome! E ficava feliz por ser tudo indiscreto assim.
Um fim de tarde de compras e incontáveis cumprimentos gentis de “me desculpe”, “pode passar”, “não foi nada” de incontáveis pessoas irritantemente educadas. Você não sabia onde ficava o sabonete e eu não encontrava iogurtes e a sopa de feijão. Jogávamos para o carrinho as risadas colhidas de cada produto que pegávamos só para ler preço, calorias, valores nutricionais, e depois devolver no lugar errado.
Muitas prateleiras e poucos pedidos. Porque ainda não conseguiram empacotar paciência e conformidade. Enquanto isso, a gente precisa se contentar com bolacha recheada. "Leva um cereal, pra ter um café da manhã chique".
Na gôndola de desodorantes foram mais 14 minutos, e a gente abria todas as tampas e fazia uma minuciosa seleção entre este e aquele. “Cheiro de banho”, você definiu o vencedor da vez. Ficamos um pouco mais para nos divertir com os da prateleira de baixo, de preços bizarros. Você espirrou sem dó alguma um rastro de Rastro no meu cabelo e ombro direito. Nessa hora eu contava exatamente que o cheiro dele tinha estado comigo. Acordei brigada contigo. E uma saudade de dar raiva.
(*) Qualquer editor inverteria os parágrafos - mas eu preciso terminar pelo meio, pra fingir que ainda pode aparecer outro fim.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

ofereço uma cadeira, não para sentar

Julho está fechado, pelo menos até o ano que vem. E daí? Nem sempre algo que tem fim foi ruim. Nem sempre algo que tem início será ruim. Ou bom, como queira seu humor. É tão saboroso sentir seu sorriso no canto da boca por alguém que abanou o lenço branco na janela que parou a pedido do trem...apaixonente as palavras, sinceras as frases, segura a companhia que se faz ao telefone, mesmo querendo o lado a lado, a divisão de um trvesseiro na calçada, já que o calor vem chegando e o céu fica mais bonito. queria dizer que não estás dando voltas no quarteirão, apesar da sensação que te aperta o peito e sufoca a mais ínfima vontade de se sentir bem. não tenho este direito, já que por vezes incontáveis tive a mesma sensação...e hoje digo que foi bom. não quer dizer que tenha aprendido, apenas sei que por infinitas vezes voltará e voltará. é certo que voltará. nunca encontrei bons ouvintes, ou raros foram os momentos, não posso ser injusto. o certo mesmo é que nunca deixarei que estes bons ouvintes das minhas angústias percam o espaço garantido nos bons pensamentos que por vezes confesso ter. rode, rode mesmo. sofra, sofra demais. quando menos esperar, não, o arco iris não estará no final. não tenho e ninguém tem o direito de te prometer nada. compartilho do teu inferno. passei por ele e sua escuridão estão sempre rondando. bata os braços, isso sim. sei que não quer se afogar, mesmo que dê de ombros ao acabar de ler essa frase.


AGT